sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

pura vaga-lumagem

Comecei o ano resolvendo bobaginhas que sempre adiei. Acho que todo mundo acaba fazendo isso. Tem, por exemplo, uma carta que eu tô pra escrever há quase sete anos – e desconfio que a remetente, se ainda estiver entre nós, já não lembra de mim...

Anyways, aqui em casa tem um livro da “Série Vaga-lume”, que eu nunca tinha lido. Sempre, sempre tive medo do livro, principalmente quando era criança de fato. Trata-se de “Sozinha no Mundo”, de Marcos Rey. Eu não gostava das ilustrações, a começar pela da capa: uma pobre duma mocinha, com uma oncinha, olhando pro nada, com uma cidade sombria ao fundo. Pra completar, nas ilustrações internas tinha uma mulher horrenda (que parecia uma costureira que trabalhava aqui em casa), que corria atrás da garota pela história toda. Na verdade, na verdade acho que era o título mesmo que me metia medo. Medo de terminar sozinho no mundo também.

Enfim, resolvi que eu já tenho idade e tempo sobrando pra curar esse trauma. Peguei o bendito do livro e numa corrida li o troço todo. Realmente a história da menina, a Pimpa, é foda, coitada, mas foram outras as coisas que me chamaram a atenção. E antes de falar delas só queria esclarecer: sim, já não vou ter medo do livro (até porque se ficar sozinho no mundo agora, já sou ridículo o suficiente pra me virar).

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o texto. A “Série Vaga-lume” (que eu costumava chamar de “Série Vagabundo”) foi um marco na minha geração e, provavelmente até mais, na anterior. Mas eu me dei conta de que o texto era tão simplezinho. De tal maneira que eu juro que com 13 anos eu podia escrever um volume. Ainda mais com a mente fantasiosa que eu tinha!

Treze anos, aliás, era a idade que eu tinha quando me obrigaram a ler “Um Cadáver Ouve Rádio”, da mesma coleção, do mesmo autor. Hehehe, eu odiaaaaaaava ler por obrigação, bastava o livro ser indicado para trabalho para eu não conseguir ler. Bom, daí peguei o livro na biblioteca do Renascença, um bairro tranquilinho e bem habitado aqui de Tubiacanga, e fiquei 15 dias com o livro. Claro, não li. Tentei renovar, mas a vaca da bibliotecária não deixou. O pior é que no mesmo dia a outra bibliotecária, uma boazinha que tinha lá, me contou que ia jogar umas revistas fora, e que eu podia pegar o que quisesse pra mim. Resultado: eu fui pra cabine onde havia, sei lá, um milhão de Vejas e passei, hehehe, seis horas lá escolhendo o que levar (em 199x...ooops! Aos 13 anos.). Saí de lá exatamente porque a desaforada da bibliotecária ruim tava falando pra boazinha que “um menino teve a coragem de pedir pra renovar ‘Um Cadáver Ouve Rádio!”; Saí, com trocentas revistas na mão, e ainda olhei feio pra ela, que obviamente se assustou de eu ainda estar ali. A boazinha riu horrores, hehehehe.

Voltando, voltando pro “Sozinha no Mundo”. Como eu disse, pelo menos umas três gerações de jovens brasileiros leram muitos dos livros da “Série Vaga-lume”. Aí eu fiquei pensando no tanto de merda que a gente aprendeu com eles também. Tudo bem que os tempos eram outros, e a gente não pode avaliar as pessoas e as obras de outros tempos com os olhos de hoje, mas convenhamos, encontrei umas passagens no livro que achei no mínimo curiosas. Tais como:


1) “O mais comovido de todos era Hugo Cassini. Tão bom fora para Pimpa que parecia até bonito, apesar do nariz de tucano” (pág. 44).

Bacana o autor, né? Melhor que a descrição do nariz só a aula do que é um nariz bonito e do que não é. Ainda bem que meu singelo tucaninho, nos anos 80, ainda era só projeto.

2) “Era uma garota de sua idade, que seria bonita se não fossem dois dentinhos acavalados” (pág. 46).

De novo, o autor ensina aos meigos leitores de 5ª a 8ª série quem zoar e quem não zoar na sala de aula. Eu só gostaria de lembrá-lo (estará por aí?) que dentinho acavalado, ou encavalado como dizíamos, também tinha a Dona Bruna Lombardi (aliás, ainda tem!) que era de longe a mulher mais bonita da época de todos os livros da “Série Vagaba”.

3) "Nunca há vagas durante o ano letivo, mas no momento só temos a Marina. Pobrezinha, passa as férias conosco. Seus pais são divorciados” (pág.61).

Essa é histórica porque era assim mesmo: “Garotada: zoar com os filhos de pais divorciados!”. Isso é tão engraçado, pensar que realmente havia um preconceito contras essas crianças. E que hoje deve ser o contrário. Por outro lado, eu bem lembro que era doido pros meus pais se separarem, pra eu ser bajulado como minha prima. Bom, estão casados até hoje, fiquei na vontade, hehehe.

4) “E aquela gorducha – agora devorando uma caixa de bombons – em poucas horas tornara-se como uma amiga antiga” (pág.63).

Eu juro que professora nenhuma discutia estereótipo nas provas de livro! Sem falar nos termos usados. Pobre das gordas.


Enfim, pobre de gordos, dos portadores de dentinhos acavalados, com nariz de tucano e filhos de pais separados. Uma legião de coleguinhas leu, por orientação de seus professores, que todos eles eram dignos de muita zoação na escola, na rua, no caralho a quatro.

Quero fechar lembrando que os tempos eram outros, as crianças eram outras, a escola era outra. Por mais que todos esses detalhes pareçam engraçados (ou até revoltantes, em caso de narizes!), cabe pontuar que escola naquela época ensinava e criança naquela época lia. E cabe lembrar que eu adorava o “Açúcar amargo”, “O Mistério do Cinco Estrelas” e “A Ilha Perdida”, entre outros. Todos da histórica “Série Vaga-lume”. :)

P.S.: Com todo respeito à série citada, meu gosto pela leitura eu devo mesmo a Ganymedes José Santos de Oliveira e sua Série “A Inspetora”. Eu sei que a Jacyra me entende, hehehe. Isso dá outro post.
P.S.2: Estou lendo “Lucíola”, do José de Alencar, pra voltar à idade adulta. Comento depois.

Besos.

7 comentários:

Anônimo disse...

Humbert, meu caro! Olha eu aqui de novo, compartilhando contigo essas trágicas experiências de nossa (nem tão distante) infância e adolescência... Credes que li a Coleção Vagalume inteira!? Por livre e espontânea pressão de um famigerado evento chamado "Círculo do livro" que existia na escola em que eu estudava. Lembro-me que eu era bolsista e que, assim como os personagens descritos "com tanta sutileza" pelos autores, eu era zoada por ser a única negra no meu turno e no meu balé, por ter os dentinhos encavalados e por ser filha de pais separados. Mas como diria você mesmo, "whatever!"...Apesar dos perrengues que a gente passou naqueles idos tempos, tenho certeza que isso fez com que nós pudessemos ser quem somos hoje, pessoas mais críticas, mais fortes e muito melhor preparadas pro mundo do que os adolescentes atuais, que vivem num universo de Malhação e NX Zero, por exemplo. Fomos crianças "de rua" e não "de pilotis". Calçávamos All Star,Bamba, Conga (nem lembro!?) e não Nike Shocks... mas líamos mais, ríamos mais e vivíamos mais intensamente tudo, muito mais do que a infância de hoje.
Agora, se tivéssemos naquela época a tarimba que temos hoje, meu caro... nem o céu seria o limite!
Beijo da Jana

P.S.: Meu pânico de insetos se deve ao "Escaravelho do Diabo", acredita?! Acho que isso foi uma das coisas que ficaram mais fortemente marcadas, até hoje. KKKKKKKKKKKKKK

Humberto, o próprio, fã incondicional da Janaína disse...

Jana, gata, vc não existe. Ou melhor, existe, é um espetáculo e um alívio de beleza e inteligência nesse mundo asno em que vivemos.
Te adooooro e vc sabe disso.
Besos.

P.S.: KKKKKKKKK pro pânico dos insetos!

Polly disse...

Ei Humbert!!! Tô de volta da Bahia...tava próxima das terras de Jorge Amado, autor que eu não consegui criar coragem para ler, até hoje.

Mas fina, como sou (e não digo isto pelo corpinho, nem poderia dizer), estava ontem almoçando no mesmo lugar que Glória Maria...comendo um "Fantástico" camarão...rs. Mas nem sou fã dela não, mas nem vou dizer aqui o que penso dela pra não correr o risco de parecer preconceituosa, coisa que não sou...beijos...beijos....saudades

Emanuelle disse...

Saudosa série vagalume... O Pedro Bandeira tb marcou minha infência! Esses livros eram tão melhores e mais divertidos e emocionantes que os livros de gente grande... Hehehehehe!! Beijooooooooooo :)

Anônimo disse...



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