sábado, 8 de março de 2008

"Você já foi ousada, não permita que a amansem"


E eis que o 08 de Março chegou.
Parabéns leitoras, parabéns mulheres todas!

Eu nunca entendi bem esta data. Não compreendo porque as mulheres devam ter um dia especial. Pra agitar o comércio? Por causa daquele incêndio lá nos Estados Unidos? Que seja. Dar à mulher um dia “só seu” mais significa, para mim, lembrar à mulher que ela é diferente, que é “minoria”, que não é homem.

Claro, não é mesmo. As diferenças têm seu valor, graças a Deus. O problema é que a maneira como essa diferença é ressaltada, e de modo especial com essa data, traz em si alguma coisa que deixa claro que homens e mulheres são diferentes – mas, curiosamente, os homens ficam parecendo melhores (afinal de contas, o dia deles são todos os dias, “é óbvio”). Os dias são dos homens, o mundo é dos homens. Desculpem, garotas, mas é isso que parece para mim o tal “Dia da Mulher”.

Eu tenho certeza que para muitas mulheres também. Eu lembro bem quando eu trabalhava na Tom, aqui em TuBHcanga. O número de mulheres era muito maior que o de homens no local. No 08 de março que eu passei lá, queria parabenizar minhas amigas de trabalho, mas estava meio sem saber como fazer (porque realmente, acho uma bobagem). No fim saí dando aquele parabéns meio mecânico e constrangido até que cheguei na Priscilla Dourado. E a Priscilla agradeceu, tão sem graça quanto eu, mas não se conteve e disse que não entendia exatamente porque merecia parabéns naquele dia: “Só porque eu sou mulher?”.

A Pri disse tudo. Afinal, faz sentido parabenizar alguém só por causa de seu sexo?

:)

Pelo sim, pelo não, eu sou cheio de leitoras e não quero correr o risco de desagradar alguma num dia que pode ser especial pra ela.

Meninas, mulheres, seres humanos do meu coração: Muitas felicidades para todas vocês! Porque todo mundo merece!

Beeeeeeesosss!!!!


P.S. GIGANTESCO:
Meu texto é o de cima. Mas abaixo seguem algumas citações que usei no meu projeto de conclusão do curso de Comunicação Social (1976-2006 – “Mulheres Brasileiras: Ainda as Mesmas e Vivendo Como Suas Mães?”). Fica pra que vocês dêem uma olhada no que as mulheres já conquistaram, na repercussão dessas conquistas, no quanto se valoriza ou se demoniza algumas personalidades femininas por terem sido pioneiras. Fica aí pra que vocês pensem no que ainda precisa ser feito.

As citações estão em formato acadêmico, se alguém quiser saber as fontes certinho é só me perguntar. De todo modo, cabe sugerir a leitura de “A Cama na Varanda”, de Regina Navarro Lins. E cabe ressaltar que o título deste post é afirmação da bailarina Isadora Duncan (se não der tempo, ou der preguiça, de pensar em todas as citações, pense ao menos nessa). Todos os besos mais uma vez!


ANOS 70...
"Naquele ano, o presidente era Garrastazu Medici, vivíamos sob ferrenha ditadura e a sexualidade da mulher era algo vergonhoso e, por isso, Nova era submetida a censura prévia. Os homens não “permitiam” que suas mulheres trabalhassem e, nas empresas, elas eram minoria. Na política havia apenas duas ou três. No meio disso tudo, Nova surgiu propondo à mulher que pensasse em si mesma, em seu prazer, em sua aparência, em sua realização profissional, em sua necessidade de participação social" (Fátima Ali1989, p.12).

"A entrevista abalou tanto a moral e os bons costumes da época que o então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, assinou, dias depois, um decreto (apelidado de “decreto Leila Diniz”) instaurando a censura prévia no Brasil. Leila começou a sofrer perseguições políticas e foi vetada em vários papéis para a televisão. Foi o início da fase mais violenta da ditadura militar" (Dias, 2003, p.52).

"A década de 70 talvez tenha sido a mais importante do século XX, a que preparou a humanidade para o terceiro milênio. Isso porque nesta década, na mesma mulher se superam os dois tabus que eram os pilares de sua submissão ao homem, e parte do sistema patriarcal: a liberação da sexualidade fora do casamento e a possibilidade de se sustentar sozinha, sem precisar do homem. E aí estavam, aos milhões, mulheres orgásticas e independentes" (Dias, 2003, p.55).

"Nos países da América latina, soma-se a tudo isso a forte influência do machismo, ainda bastante visível no relacionamento entre os sexos, manifestações públicas de não aceitação de mulheres em posições hierarquicamente superiores dentro da administração pública, por exemplo, ou em cargos de chefia ou de direção superior, no setor empresarial privado" (1989, p.145).

"Os elementos ainda persistem na estrutura familiar patriarcal, baseada na dominação incontestada do pai – mais tarde substituído pelo marido (legal) ou pelo companheiro, ou ainda por um irmão ou representante masculino do núcleo familiar mais ou menos ampliado – tudo isso contribui para reforçar a situação de marginalização da mulher, em relação à vida política nacional" (Tabak, 1989, p.145).

"A verdade é que não tem sido nada fácil para as mulheres, no Brasil, atuar em “igualdade de condições”. As mulheres que chegam à condição de candidatas – a qualquer mandato eletivo, em qualquer nível – queixam-se sempre de que tiveram grande dificuldade para conseguir uma “vaga” na lista de candidatos, ou seja, legenda partidária, para ter registrada sua candidatura" (Tabak, 1989, p.146).

"A escolha de Dilma Rousseff dará à Casa Civil um formato mais gerencial e menos político. Reconhecida como boa gerente no governo, a petista ganhou pontos com o presidente em dois anos e meio de governo pelo perfil trabalhador e discreto" (Alencar, 2005. Acesso em 02 out. 2006). ...ANOS 2000.


ANOS 80 e 90...
"PLAYBOY: Mas esse ritmo de vida foi desgastando o romance.
XUXA: A gente só podia ficar junto na folga dele. A princípio, ele disse: “Para ficar com você eu tenho de saber o quanto teu trabalho é importante.”Depois de algum tempo, disse: “Não, não! Tem de diminuir o trabalho, senão não dá...” Mas eu tinha muito mais trabalho naquela época, estava fazendo muita coisa. Muita coisa. Estava com um programa diário no Brasil e outro na Argentina, estava com um semanal na Espanha e estava estudando inglês para fazer um programa diário nos Estados Unidos. E fazia quarenta shows ao vivo por ano.
PLAYBOY: O Ayrton Senna chegou a pedir para você parar com tudo para ficar com ele?
XUXA: Ele falou: “Ou você diminui teu trabalho, ou arruma um espaço para mim.”
PLAYBOY: Você chegou a discutir isso com a Marlene?
XUXA: Imagina! A Marlene nem sabe disso. Não falei porque nem considerei essa possibilidade. Para mim, o mais importante continua sendo o meu trabalho." (Pinto, 1996, p.52).

"Há trinta anos, seria motivo de escândalo uma moça solteira anunciar sua gravidez em casa, apenas aos familiares. (...) Hoje, no entanto, depois das conquistas obtidas pelas militantes da emancipação feminina, do alargamento dos padrões morais e do esvaziamento do casamento formal, que até mesmo na letra da lei perdeu espaço para a chamada união estável, um anúncio como o de Xuxa já não causa choque". (Camacho, 1997, p.107).

"O que faltou a João Pedro Stédille foi a compreensão humana da realidade de Débora. Faltou também solidariedade. Solidariedade de quem entende o que é não ter casa, não ter os filhos consigo por não ter como sustentá-los. Solidariedade de um universitário que sabe muito bem o que o capitalismo e o mundo do consumo fazem com as pessoas. As "Déboras" não são ETs num mundo abstrato. Além de cidadania, casa, comida e trabalho, querem também um sapato da moda, um vestido novo, um perfume... Esses quereres não justificam nada, mas ajudam a compreender e a respeitar a complexidade do ser humano. (...) E não me venham dizer que as companheiras são umas tontas que não sabem responder a esse tipo de provocação, que tem a ver com o machismo e não com o MST, tem a ver com o desrespeito à mulher e à sua liberdade, que, pelo jeito, grassa em todos os campos." (Marta Suplicy, 1997. Acesso em 05 out. 2006).

"Elas resolveram falar. Quebrando um muro de silêncio que sempre cercou o aborto, oito dezenas de mulheres procuradas por Veja decidiram contar como aconteceu, quando, por quê. Falaram atrizes, cantoras, intelectuais – mas também operárias, domésticas, donas de casa. Falaram de angústia, de culpa, de dor e de solidão. Também falaram de clínicas mal equipadas, de médicos sem escrúpulos, de enfermeiras sem preparo, de maridos e namorados ausentes." (Barros, Santa Cruz e Sanches, 1997, p.26).

"Nossa mãe, que mudança. A Madonna dos escândalos, das provocações a céu aberto agora é só de Lourdes. Quer trocar Like a Virgin por cantigas de ninar. A mais liberada das mulheres vai dar uma educação rigorosa à filha e não quer que a menina sequer assista à televisão." (Wilkinson, 1997, p.118).

"Do jeito como ficou o relatório conclusivo do inquérito policial e conforme a denúncia, o caso Daniela Perez tem tudo para se somar aos hediondos assassinatos de Ana Lídia, Aracelli, Cláudia Lessin, e aos de tantas outras meninas e mulheres, que permanecem impunes. E pior, em muitos casos, a vítima foi de tal forma atacada em sua dignidade nos julgamentos, que se aparecesse no tribunal, com certeza seria morta outra vez." (Meinel, 1993, p.36).

ANOS 2000
"(...) Denise compromete-se com o novo (e explícito) discurso feminista que vem eclodindo do funk, nas vozes de garotas como Tati Quebra Barraco (de Sou Feia, Mas Tô na Moda: (“Tô podendo pagar hotel pros homem/ e isso é que é mais importante”) e Deize Tigrona (de Injeção: “Tá ardendo, eu tô agüentando”). 'As funkeiras falam de sexo, são lúdicas, têm articulação verbal. Que mulher faz isso hoje em dia? Não me ocorre.'"(Sanches, 2005, p.65).

"Foram dez meses entre a morte de Cássia e a conquista da guarda definitiva do garoto de 9 anos que viu nascer e de quem cuidou desde bebezinho. Um período de difíceis emoções: tristeza e saudade pela morte da companheira, angústia e ansiedade com a possibilidade de perder o filho. O pai de Cássia, o sargento aposentado Altair Eller, reivindicou a guarda do neto e, no fim, entrou em acordo com Eugênia. O entendimento permitiu uma decisão ousada da Justiça, reconhecendo, assim, as novas formações da família brasileira. Uma mulher homossexual teve garantido o direito de ser mãe, ainda que não tenha gerado o próprio filho." (S/A in Crescer on line. Acesso em 14 out. 2006).

"Eu, como quase todas as mulheres da minha geração, passei por uma fase de dedicação total à carreira. Seguimos à risca os conselhos de nossa mãe: “Seja independente, não dependa do marido!” Mas, para conquistar nosso espaço, relegamos o emocional a segundo plano. Todas queríamos vencer como os homens, ter poder como os homens. Não me arrependo, sinto orgulho do que construí. Porém, se tivesse que dar um conselho a você, diria “Vá com calma”. Hoje a realidade é outra. Não precisamos deixar nosso universo para adotar o deles. Dá para incorporar o que há de melhor nos dois. E, principalmente, ouvir nossa voz interior, que é a melhor guia." (Ana Paula Padrão, 2005, p.59).

"De um lado, as conquistas femininas são admiráveis; de outro, os homens acostumados ao comando ficaram perdidos, sem saber como se comportar diante dessas mulheres – o que gerou problemas de relacionamento para o qual as novas gerações estão buscando fórmulas. Xuxa e Adriane Galisteu são bons exemplos de que a mulher bem sucedida ainda escorrega nas expectativas machistas. Enquanto a primeira moldou um novo tipo de relação para concretizar o sonho de ser mãe, a segunda tomou pau na tentativa de realizar-se tanto no campo profissional como no pessoal, já que o marido, o publicitário Roberto Justus, não segurou a onda de ter uma esposa com tão pouco tempo livre. Determinada, não abriu mão da carreira e pagou o preço da separação." (Mendonça, 2000, p.19).

"Na nossa cultura patriarcal, a mulher feminina renuncia a partes do seu eu, na tentativa de corresponder ao que dela se espera. O mesmo ocorre com o homem masculino. Suas características são, sem dúvida, a força, a coragem, a ousadia, o desafio, e tantas outras o gênero. Tanto o homem como a mulher podem ser fortes e fracos, corajosos e medrosos, agressivos e dóceis, dependendo do momento e das características que predominam em cada um, independente do sexo. Os conceitos de feminino e masculino são prejudiciais a ambos os sexos por despotencializar as pessoas aprisionando-as a estereótipos." (Regina Navarro Lins, 2000, p.119).

***


É isso. Quem se interessar em ler meu trabalho inteiro, be my guest.

3 comentários:

Caroline disse...

Eu simplesmente adoro a frase que abre o post.

Bjos.

Humberto disse...

Podia ter botado só ela, né? Hehehe. Ficava menor.
Inté.

Caroline disse...

Lembrei de todas as outras citações, mas essa é demais.

Abs.