domingo, 3 de outubro de 2010

afasta de mim esse cálice

Enquanto escrevo este post estão sendo contados os votos da eleição deste ano. Eu não tenho o sangue frio necessário para acompanhar o noticiário. Prefiro saber o resultado num golpe só, mais cedo ou mais tarde, pela internet.
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Mesmo que eu tenha falado quase nada sobre a corrida presidencial e as outras aqui no blog, mesmo que eu não tenha discutido muito, eu não consigo não acompanhar. Eu sou da casa dos 30 e pouquinhos, e tenho boa memória. Lembro da agitação na época das "Diretas Já" e lembro do quanto adorava os debates (da Band, se não me falha a tão álardeada memória) com os presidenciáveis em 89.
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A política também (e por incrível que pareça) vem da família, já que meu avô era um notável político do interior, e só de pensar que ninguém dava valor àquela preciosidade histórica que era a mesa dele, cheia de documentos e fotos, me parte o coração.
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Enfim. Quieto que fiquei no meu canto este ano, confesso que me diverti acompanhando minha mãe às urnas. Na casa dos 70 e nervosa que só ela, foi uma lenda explicar pra ela o número de votos que ela tinha que dar, perguntar em quem ela queria votar, ensinar como usar a "colinha". O mais interessante de tudo é que podendo simplesmente não votar ela bateu porque bateu o pé que tinha que votar. Foi uma bagunça na hora H, mas deu tudo certo.
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A questão é que meus pais vieram do interior pra TuBHcanga (pensa bem, se BH em 2010 é roça, imagina o interior de onde eles vieram...) em 1964. Isso te lembra alguma coisa? Isso mesmo. Deram de cara com um golpe militar e uma Ditadura. E essa experiência, ainda que Dona Madree não tenha sido militante e não tenha ainda hoje muito conhecimento de política, marcou a vida dela pro resto da vida. Ela ainda tem medo de coisas que ninguém acredita. A quem daria medo, por exemplo, a ideia de que os mesários podem identificar seu voto pelo barulho da tecla?d

Conto esses causos porque, em meio a Tiriricas, Fichas Sujas e coberturas jornalísticas descaradamente suspeitas, o que mais me assustou nestas eleições foi o descaso de muita gente que eu conheço pelo direito de votar. Nos Facebooks, Twitters e conversas em geral, li muita gente fazendo pouco caso e até mesmo falando que é uma "ditadura isso de ser obrigado a votar". Isso é muito sério, e muito decepcionante.s

Os brasileiros, que não são os melhores de memória, deviam começar a estudar um pouco mais de História. E História recente do país, coisa de não mais de 50 anos.
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E além de estudar, os brasileiros podiam tomar um pouquinho de vergonha na cara também. Porque foi um festival de "Se Fulano for eleito saio do país!", "Não votem em Beltrano!", mas tudo sem nenhuma argumentação. Não votar em Cicrano por quê, afinal? Convença-me, mas como um adulto.
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Esse povo todo que está aí, esbravejando preconceito e dizendo barbaridades sem pensar, sem comprometidmento nenhum, será que moveria realmente uma palha pra mudar alguma coisa? Será que debateria? Será que sairia às ruas e daria a cara literalmente a tapa pela simples necessidade de lutar pelo país? s
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De verdade, você consegue imaginar essa gente "cheia de opinião" de hoje, numa manifestação como essa aí acima? Se envolvendo mesmo?
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O debate político hoje está empobrecido. Os "argumentos" são levianos e sem embasamento. O ódio de classes parece ter tomado conta e cegado as pessoas. Todo mundo está certo e não há discussão.

Enfim, fico pensando que minha mãe tem mesmo motivos pra ter medo. Porque quem viveu o peso daqueles anos sabe o perigo que é descuidar e dar brecha pra que eles voltem.
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4 comentários:

Janaína disse...

É, Humberto! Estamos num processo de relativização e desvirtualização de valores. As pessoas não têm um argumento sólido e uma consciência sócio-política adequada e correta simplesmente porque, a maioria delas, não teve pelo que lutar. Tudo bem, eu também não lutei mas sou neta de militar aposentado e que era contrário ao movimento da ditatura. Meu avô era a favor da liberdade, da vida, da educação e do progresso. Assim como você, estou na casa dos 30 e poucos e também recebi o "castigo" de ter uma boa memória. Digo castigo porque isso só faz com que a gente fique cada dia mais indignado com o vaziismo de conteúdo e, consequemente, de consciência - não só política, mas cultural como um todo - do povo brasileiro. O que é lamentável, porque, considerando tudo pelo que o Brasil passou para ser uma democracia, penso que, o mínimo que o cidadão brasileiro deveria fazer é respeitar essa condição e valorizar minimamente a manutenção de um "nível" democrático pelo menos respeitável e aceitável. O que falta neste país, além de educação, é bom senso. Sem isso, fica difícil, em termos de política, dar um passo no rumo correto para fazer algo de positivo e realmente concreto.

o Humberto disse...

Janaína, mais uma vez, seu comentário só vem enriquecer o post. Você disse tudo. O negócio é que a gente não pode só ficar atônito e desolado. Nem que seja conversando, todos nós temos que fazer alguma coisa, por menor que seja. E por mais difícil que seja acreditar que haja algum jeito pra essa alienação toda.

Sarah disse...

Nossa, muito bom o texto Humberto e eu concordo com tudo o que vc disse, sem tirar nem por.
É exatamente isso que vejo ( e ouço)a cada ano eleitoral, que é um "saco" ter que ir votar e que, pelo amor de Deus,devemos votar em X mas em Y nunca. Aí pergunto, porque em Y nunca?
Ninguém sabe responder rs.
Eu fui a única que votei diferente aqui em casa, votei em quem eu achei que devia "uai".
E sobre os debates 20 anso atrás, ah, eu também gostava e me divertia muito.
Nunca vou esquecer de um, nem tãooo antigão assim mas, antigo, onde estavam Maluf ( impagável) e Covas.
O Maluf é tudo de mais escroto que existe mas sempre ri muito com o cinismo e a frieza dele em debates. Uma vez , no final de um ele falou para o Covas que São Paulo não podia ter um governador fraco e covarde como ele, que passou o debate inteiro suando em bicas. Verdade, o Covas parecia que tinha caído numa piscina, du até dó dele ( não menos podre que o Maluf não).

o Humberto disse...

Hehehe... é, Dona Sarah, não é fácil não. Eu fico atemorizado com as aberrações que leio como "opinião" nessas eleições, dá mais medo que a cara do Serra.

Eu ri demais do caso do Covas suando. Tenho uma amiga muito fina que conheceu o Maluf num almoço de negócios da empresa. Ela falou que ele é uma pessoa muito carismática. A gente avalia, né? rs...

Beijo lindona!