sexta-feira, 21 de outubro de 2011

me engana que eu gosto

"Sem maneiras de agarrar seu homem". Essa brincadeirinha com aquelas tradicionais dicas de como arrumar, agradar e manter um marido esteve presente já na capa da primeira edição da TPM, lá em 2001, como uma maneira de deixar bem claro que ela era uma revista feminina diferente das outras.

A TPM é uma publicação que nasceu da costela da Trip (coincidentemente, elogiada ontem neste blog). Eu sempre gostei da proposta da revista, já no nome (o trocadilo TPM, sigla de Trip Para Mulheres), na linguagem e até nesta proposta de ser uma revista feita, em tese, para a mulher que se preocupa consigo mesma e não em arrumar um parceiro pra ser completa, uma revista diferente das outras.

O negócio é que a TPM nunca foi essa revista (se não me engano, já falei disso aqui e aqui). Pelo contrário, ela acabou sendo sempre uma revista que nunca realizou sua proposta porque nas entrelinhas, com seu discurso cool e moderninho, sempre fez exatamente a mesma coisa que as outras, que tanto desdenha -- colocar a mulher no seu lugar.

Nem vou falar das questionáveis escolhas de capa (qual a relevância de uma sobrinha da Malu Mader?). Também não vou ignorar que quando a revista acerta, acerta com vontade (exemplo). Fato é que a escolha da estrela para a capa de sua edição de 10 anos só confirma essa percepção que eu sempre tive da TPM como uma Claudia disfarçada. Porque no mesmo mês que TPM completou sua primeira década, Claudia completou cinco. E as duas escolheram Angélica como capa.

Já falei, nada contra Angélica ou contra a vida que ela escolheu (ainda que eu tenha lá motivos para discutir). O que me irrita é a insistência em colocar Angélica como exemplo de vida perfeita para a mulher: mãe, CASADA, sempre levemente atrás do marido. Angélica sempre trabalhou, ainda que sempre sendo uma sub-Xuxa, mas só foi ganhar visibilidade (e muitas capas) depois que se casou e saiu por aí repetindo o discurso manjado de que "a vida da mulher só começa depois do casamento e dos filhos". Aos sábados, faz a anfitriã que recebe bem (mas não come, pra não engordar) os convidados, preparando a sala pro programa do esposo, que vem logo depois. Como diria Huck, na época em que não fazia anúncio de nada, "essa é pra casar".

Enfim. Daí vêm a moderninha e cabeça-feita TPM e a vovó Claudia e contam com a mesma Angélica em edições importantes. TPM ainda se esforça e descreve a moça (digo, senhora casada) como livre, leve e loura. Será que alguma das revistas daria capa a ela na fase em que realmente estava assim, aquela em que ela chutou o balde da pose de virgem e até rompeu com a família pra ficar com um Maurício Mattar doidão? Não, né?

A TPM devia assumir sua caretice. Começar a assumir suas "100 dicas para arrumar um marido e passar a ter vida". Ou então, melhor, passar a ser uma revista realmente alternativa, que realmente pense na mulher como dona de si mesma, independente de padrões ultrapassados. A Claudia, com 50 anos, se mostra mais atual às vezes.

Coisas de revistas.


P.S.: Uma lástima essa edição de 50 anos da Claudia. Uma publicação com tudo isso de história, com tamanha importância nas mudanças que marcaram a vida da mulher brasileira, fazer uma ediçãozinha mixuruca dessas (e com essa capa cafooona) numa data tão especial, é de dar dó.
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11 comentários:

Diego Rebouças disse...

Interessante. Não tinha reparado.

FOXX disse...

sua análise sobre essas revistas são absurdamente interessantes! parabéns!

alan raspante disse...

angélica tá bonita nas duas capas, mas nada tira essa carinha de chuchu dela! odeio esse "moralismo" que ela passa, algo meio que hipócrita, mas a mídia adora tachá-la como a mulher-brasileira-exemplar-magra-e-loura.

bem, vai entender.

o Humberto disse...

Pois é, Seu Diego, anos de revista feminina e eu já bato o olho e vejo essas coisas.

Foxx, pelo mesmo motivo, mais de 20 anos acompanhando esse tipo de revista, eu acabo tendo muito o que falar. É apenas meu ponto de vista, mas me esforço. Obrigado pelo commment!

Alan, tadinha da mulher, só pq ela tem cara de chuchu? (Sandy e Gabriela Duarte não gostaram). É como eu falei, óbvio que ela sabe de tudo isso, óbvio que é vantajoso pra ela, mas é só a vida dela e a magem que ela escolheu. Me incomoda, e muito, é isso mesmo de ficarem forçando a barra pra reestabelecer um ideal de comportamento feminino que torna todos os outros inaquedados e censuráveis.

Abrazos a todos!

RaFa . disse...

A Claudia deveria ter pego uma cinquentona pra capa. Clichê, mas totalmente dentro do contexto.

Heron disse...

Linda capa da Trip!

Sarah disse...

Nem ANL nem AIB, mas que a Jolie é um puta exemplo de mulher, é.

Frederico disse...

não gosto muito dessas revistas, pois apresentam um mundo que muitos querem, mas poucos conseguem ter. Revistas femininas no geral tem boas matérias, dicas de moda legal, mas vendem fantasias e ilusões e fazem muitas mulheres acreditarem que a felicidade está no corpo perfeito e com um homem ao seu lado, quer coisa mais machista que isso?

Mr. TV disse...

vc tb lembra da Angélica rebelde indo atrás do Maurício Mattar, hehehe, e cara, tu sabe q eu gostava dela na época, daquele jeito, humana! abs

Janaina disse...

É essa dificuldade que as pessoas têm hoje em dia (e desde sempre) de segurar a peruca e a onda de serem o que são, que vai matando as verdadeiras identidades editoriais nas revistas, meu caro Humberto!
Essa pasteurização do universo feminino é que determina o perfil das revistas e, consequentemente, o comportamento da sociedade, o que faz, muitas vezes, com que a gente não saia do lugar. Sabe o que eu concluo? É uma epidemia de "ISMO" que não deixa a gente evoluir.
Quando vem alguém fazer diferente, como a Hope, é autuada por SexISMO.
Então, cadê as negras nas capas? Isso é RacISMO!
Revista de mulher não pode ter perfil diferente? Ah... é fascISMO!
Porque, se tiver, aí também não é bom! Vão dizer que é FeminISMO!
Mas e as revistas masculinas, com mulher pelada? Isso não é MachISMO??
Ai... ai... quer saber?! Pra mim, o que impede o nosso EvolucionISMO, nosso LiberalISMO, é o CINISMO. Isso sim! E infelizmente!

SG disse...

Cláudia fez parte da vida da minha mãe. E da minha, por tabela.