sexta-feira, 4 de novembro de 2011

a igualdade é rosa. os estereótipos de gênero nem tanto.

Chegou em casa ontem a edição de novembro da Claudia. Depois daquela decepção no mês passado, fiquei me perguntando se teria algum tesão em abrir a revista. Eu sempre soube que não sou o público-alvo, mas, como vocês bem sabem, (ainda) adoro revistas, e vinha pondo fé na Claudia desde o ano passado.

Daí que este mês veio com Ivete Sangalo na capa (descrita como "forte e autêntica" -- e só isso já justificaria ELA e não Angélica na capa dos 50 anos). Eu sou desses leitores cuja primeira leitura é sempre do editorial. E lá está Cynthia Greiner, atual diretora de redação, de quem eu me lembro quando ela era colunista da Nova, uns 20 anos atrás (é dela, aliás, o mérito de ter emplacado a primeira negra na capa da Cosmopolitan brasileira).

Enfim. Daí o editorial vem com o título "A igualdade é rosa". Mais do que a menção à trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski, esse título me remete à maneira como as meninas são educadas, desde novinhas, para entender o feminino como delicado, meiguinho, diferente do masculino, forte e independente. Então fica difícil falar em igualdade quando, do começo, já se ressalta a diferença.

O tema em questão é a nova campanha da revista, pelos salários iguais entre homens e mulheres. Eu acho importante e muito válida. Confesso que em minha experiência profissional eu nunca vi essa diferença na prática, mas sei que é uma realidade que atrasa bastante o desenvolvimento do país.

O curioso é que o editorial começa com a seguinte declaração da sempre brilhante ministra Iriny Lopes: "Minha preocupação é com a perpetuação dos papéis". Insistir em ligar o feminino ao cor de rosa não é uma espécie de perpetuação dos papéis?

A diretora da revista explica que isso foi dito durante um almoço das duas, no auge da polêmica em torno da campanha da Hope com Gisele. Segundo ela, a ministra ainda garantiu que "Queremos igualdade, mas queremos ser femininas". E, de novo, fica pra mim uma sensação de perpetuação da ordem que estabelece o papel da mulher (como frágil) e que estabelece o homem como merecedor de maiores salários porque ele tem que manter essa mulher. Ou seja, que espécie de luta é essa, afinal? É complicado ir fundo e buscar igualdade de fato, não é mesmo?

Eu não digo que é pra mulheres e homens passarem a ser todos iguais. Não acredito que ninguém seja realmente igual a ninguém. Só questiono esse discurso de luta contra uma ordem baseando-se nas diferenças estabelecidas por essa mesma ordem. O tal feminino cor de rosa do título do editorial e da fala da ministra é o mesmo feminino criado e mantido pela sociedade patriarcal.

No mais, como leitor chato que sou, não pude deixar de achar ruim o fato de não haver uma entrevista com a ministra. Não há nem uma citação dela na tal matéria com a nova campanha. Ficou pra mim a impressão de que a foto das duas ali, no editorial, foi só pra mostrar um certo "poder" da Cynthia Greiner.

Como leitor adoraria saber o que a ministra disse a uma diretora da Claudia, o que ela realmente achou da campanha da Hope; o que ela acha de Gisele, do exemplo de profissional excepcionalmente bem sucedida que ela passa à outras mulheres; o que ela achou da polêmica das declarações dela, ministra. E principalmente, como apaixonado por revista e leitor atento, morri de curiosidade para saber o que a Sra. Iriny Lopes achou de ser recebida pela diretora da maior revista feminina do país numa sala com um poster enorme da clássica edição da Playboy de julho de 1978, a primeira no Brasil com a famosa logomarca...


"Achei arreganhada, mas feminina."

Complicado, né?
=S
.

8 comentários:

Heron disse...

Só passei os olhos no post ainda, mas só de ver sua observação da Playboy na parede...já me deixou baratinado hehe.

Ótimo final de semana meu caro Humberto!

Sheilla Matias disse...

Adorei o post, sempre com observações coerentes, hein amigo!

Legal que, as vezes, custo a "navegar" por aqui, mas quando entro me vejo lendo e me deliciando com seus textos.

Parabéns pela inteligência e qualidade.
Bjokas!

Serginho Tavares disse...

tenho saudades da revista Claudia dos anos 80, lembro também de uma revista que gostava muito, Desfile, lembra dela? acho que nem é do seu tempo, enfim, beijos e bom final de semana

@teikerize disse...

"Então fica difícil falar em igualdade quando, do começo, já se ressalta a diferença." Hazou ;D

alan raspante disse...

Ótima discussão Humberto. Creio que, este tema sobre direitos iguais entre homens e mulheres já é algo ultrapassado. Está certo que ainda há diferenças, mas não como tinha há 30 anos atrás. A mulher já tem voz e grande maioria dos homens já vestem rosa como algo casual. Ou seja, acaba sendo uma luta sem sentido. Está certo que ainda há muitas outras coisas, mas o povo já sabe falar por si.

Enfim, fiquei um pouco confuso com o seu texto, mas acho que entendi o que você quis dizer.

Adoro mesmo esses posts assim, me fazem pensar e...

Até mais!

o Humberto disse...

Alan, com o objetivo de fazer um blog cada vez melhor, nós do OHE gostaríamos de saber a sua opinião: me explica direito isso aí de ter ficado confuso, meu querido, onde foi que eu não fui claro? Me diz pra eu poder esclarecer qq ponto. =D

A introdução foi zoação, mas a pergunta é séria, você é um dos leitores mais tops daqui. Posso ajudar com a dúvida?

besos!

o Humberto disse...

Aos demais, thanks a lot pelo feedback. =) Sheilla, sempre uma honra quando você aparece.

Besos.

Cara Comum disse...

Pohãn!! Perfeita a argumentação e as observações!! Clap, clap, clap!