domingo, 22 de abril de 2012

reencontro com a boa literatura (primeiros sete parágrafos são, de certa forma, spoilers)

"Felicidade, eu não sei nem me interessa saber o que é (...). Mas tenho certeza de que não é essa coisa romântica e brega que você imagina. O dinheiro dá segurança, proteção, permite aproveitar a vida sem se preocupar com o amanhã. É a única felicidade que se pode apalpar."

"O segredo da felicidade, ou, pelo menos, da tranquilidade, é saber separar sexo e amor. E, se possível, eliminar da vida o amor romântico, que é o que faz sofre., Assim se vive mais sossegado e se aproveita mais, pode crer."

"Essa atividade incessante foi me tirando, pouco a pouco, da balbúrdia emocional que (...) me provocara. Mas não me eliminou certa tristeza íntima, certa decepção profunda, que me perseguiu durante muito tempo como um duplo, e que corroía como um ácido todo entusiasmo ou interesse que eu começasse a sentir por qualquer pessoa."

"Mesmo o cinema, os concertos, a leitura, os discos eram apenas maneiras de ocupar o tempo e não atividades que me entusiasmassem, como antes. Também por esse motivo eu sentia rancor de (...). Por sua culpa, eu perdera as ilusões que fazem da existência algo mais do que uma soma de rotinas. Às vezes me sentia um velho.

"Não se engane, senhor. Ela não foi iludida. Era uma vítima voluntária. Aguentou tudo, sabendo muito bem o que fazia. (...) Pode chamar isso de amor tortuoso, paixão barroca, perversão, pulsão masoquista ou, simplesmente, de submissão a uma personalidade esmagadora, diante da qual ela não conseguia opor resistência. Foi uma vítima de bom grado, aceitou de bom grado todos os caprichos desse cavalheiro. Isto, agora que toma consciência, é o que a deixa mais enfurecida, desesperada."

"Estou perfeitamente treinado para essas coisas (...). Em matéria de chifres e abandonos, já sei tudo o que há para saber, e muito mais."

"O tumor (...) foi detectado muito tarde e, apesar de ter sido extraído, o exame pós-operatório indicou que havia metástase e que virtualmente não restava nada a fazer. A quimioterapia apenas retardaria o inevitável e, além disso, no estado de fraqueza extrema em que se encontrava (...), provavelmente não resistiria."

***


Meu amigo Diego me pediu, em algum momento meses atrás, para escrever uma resenha em seu blog, sobre qualquer livro que eu tivesse lido em 2011. Depois de pensar, pensar e pensar mais um pouco eu tive que, muito envergonhado, admitir que não tinha lido nenhum. Na verdade tinha lido 4.832.109 livros acadêmicos para N provas de mestrado. Mas nem unzinho de literatura. Morri.

Daí um outro amigo meu, Andrucha, também menino do Rio, mandou pra mim aqui na roça, no meu aniversário, um exemplar de "Travessuras da Menina Má", do Mario Vargas Llosa . Arrisco dizer que foi a primeira vez que me deram de aniversário algo que eu realmente gosto. E eu nunca tinha lido nada de Vargas Llosa (segunda vergonha assumida neste post).

De alguma forma, o pedido de um e o presente do outro (e um cansaço generalizado da programação televisiva à noite) me incentivaram a voltar a ler mais. Eu inclusive defini o número mínimo de 24 livros que quero ler este ano. Há duas semanas reli "Diário de um Fescenino", do Rubem Fonseca (gostei mais quando li da primeira vez, cinco anos atrás). E na semana passada comecei a ler o do escritor peruano (Nobel de Literatura em ano impronunciável).

Eu me apaixonei tanto pela história de Ricardo Somocurcio e sua Lily, bom menino e menina má, que em cinco noites devorei o livro de 302 páginas. É literatura na sua melhor forma, aquela que te faz pensar até sobre o que não quer, a que te toca, que te transforma, mesmo quando você se identifica muito com ela. É verdade que o livro ainda não superou o impacto que me causou "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Márquez, mas definitivamente já entrou pra minha lista de favoritos.

A única parte ruim de ler um livro tão bom é quando ele chega ao fim. Leio as últimas páginas dividido entre a excitação e curiosidade pelo desfecho e a tristeza de que haja um desfecho. Com o perdão da comparação tosca, me apego tanto à história e às personagens que fico meio órfão no final, do jeito que muitos nós ficamos, por exemplo, com o fim de "Sex and the City" ou de "Ugly Betty" (saudade eterna de Wilhelmina).

Longe de mim querer parecer pedante (tenho pavor), mas realmente gosto que eu tenha retomado o prazer da leitura. Ainda esta semana começo a ler "Tia Júlia e o Escrevinhador", também do Vargas Llosa, que coincidentemente saiu hoje pela Coleção Folha de autores ibero-americanos.

Enfim, sempre falei de sujar All Star pra se divertir, de correr e malhar pra cuidar do corpo e de outras tantas coisas das quais não tenho propriedade nenhuma, vocês sabem. Então, da mesma forma que sugiro filmes e séries e tudo o mais, deixo também a sugestão de dar uma chance à literatura. Sei que a maioria de nós chega exausto em casa e tal, mas não custa tirar um tempo para uma boa história. E está cheio delas por aí.

Aceito sugestões para os outros 21 livros que pretendo ler este ano ainda.

Abrazos, ótima semana a todos.
.

11 comentários:

Diego Rebouças disse...

E por que retomar o gosto pela leitura resultaria pedante?

Você tem que ler, pra ontem, "Desonra", do Coetzee, autor sul-africano.

Adriana Machado disse...

Trem noturno para Lisboa.

o Humberto disse...

Tem gente que acha que gostar de ler é melhor que gostar de fazer outras coisas, daí, talvez, a possibilidade de passaar por pedante.

No mais, sugestão anotada, já vou providenciar pra logo.

Thanks!

o Humberto disse...

Adriana Machado Tom?
Gente, mas que honra.

"Trem Noturno para Lisboa" já na lista!

Nina disse...

Novecentos, Alessandro Baricco.

Vc lê numa sentada e ele te marca pro resto da vida.

=***

Matheus Amaral disse...

nossa humberto, eu já passei por essa situação de um amigo querer uma resenha, mas diferente de postar no blog eu só tinha que escrever (papel), você é como eu para ler um livro, as últimas páginas tudo fica muito emocionante, intenso nem sei explicar, muitas informações, mas adorei esse post e seu blog também, estarei voltando neste belo espaço sempre que possível
To seguindo ;)
http://amaralstarlight.blogspot.com.br/

E ヅ disse...

Bem velhinhos, mas se não leu:

A História Sem Fim, Michael Ende
e
os três livros da Trilogia de Merlin, da Mary Stewart (A Caverna de Cristal, As Colinas Ocas, O Último Encantamento)

Caroline disse...

Nossa vou querer ler este livro...adorei as passagens. Me identifico em algum momento com cada uma delas.
Acredito ou melhor tenho certeza que é preciso ficar atento as oportunidades que a vida nos dá.

Bjo e coa semana.

Tainá disse...

Olha só Humberto: http://tiffanyslittlebox.blogspot.com.br/2012/03/ler.html
Por isso que eu te falei pra fazer a conta no Skoob: aquele trem faz milagres. To lendo muito mais do que tinha edtipulado no início.

Janaína disse...

gosto muito de Vargas Llosa!
também fiz um post desse livro...
foi uma das minhas melhores leituras de 2011...

Lobo disse...

Infelizmente não posso te ajudar nessa :p

Tenho pouco hábito de ler, se leio 1 ou 2 livros em um ano é muito. também tenho o hábito de ler bastante devagar...

Beijo!