terça-feira, 13 de novembro de 2012

Little Humans -- or "Why can't I be who I want to be?"

Nota inicial: se você foi uma criança gay, ou se você foi só uma criança que os outros achavam que era gay, lembre daquelas risadinhas que davam pra você na escola ou na rua apenas pelo simples fato de você ser/existir. Agora pode ler o post.


Não fui ao show da Gaga. Sou uó (e não compro na Riachuelo).

Gosto dela. Não gostei do seu som de cara, mas depois paguei a língua e desde então tenho gostado cada vez mais. Acho até sacanagem ficarem comparando com a Véia, porque pra mim são duas ideias completamente distintas. Na verdade, a única coisa que aparentemente têm de igual são fãs insuportáveis. Mas até nisso há diferença, a julgar pelos relatos que li ontem no Face dos amigos que foram aos shows da "Mother Monster" no Brasil.

Meu fim de semana chuvoso foi ótimo e não fiquei muito tempo no computador. Mas o pouco tempo que dei uma fuçadinha (tal como porco) na internet, deu tempo de ver as piadas sobre os fãs da Gaga, na fila. Eu confesso que fiquei de cara com vários.

Acontece que daí, lendo o que meus amigos disseram sobre a relação da cantora com seu público, acabei me perguntando o quanto a gente, até sem querer acaba sendo retrógrado e preconceituoso.

Um relato dos mais bacanas que eu li foi o do SAM (e que, cara de pau que sou, vou copiar aqui):
"Eu confesso que subestimava muito a Lady Gaga, mas vi nela alguém humilde e que ama demais seus fãs. Também vi uma voz esplendrorosa e uma artista incrivel. Isso, para quem nao curte pode parecer distante mas para quem testemunhou o carinho de uma artista que encheu seu palco com fãs, como uma mãe quando reune todos seus filhos debaixo da saia, pode finalmente compreender porque ela é famigeradamente apelidada de MOTHER. Ela se tornou mãe de uma geração carente, muitos carentes de carinho dentro da própria casa.
Acho que esse é o tal segredo dela."

(Pausa pra ressaltar o quanto eu sou fã do SAM, desde sempre. Adoro o bom senso dele. E dos fãs da Madonna que conheço, não esperaria uma avaliação tão sensata como essa vindo de outra pessoa. Sou um little eterno/garoto!

Um outro relato (e este eu catei no Face de um amigo que catou no de outro amigo... sorry a kibação, povo):

"Sobre o show da Gaga :
Fui para o show achando que seria um show bom, eu iria gostar e apenas isso. Me enganei, gaga nao é a melhor dançarina no do mundo e nem é a melhor ao vivo, mas gaga tem algo que nenhuma tem : o carinho e respeito pelos fãs. já vi shows de beyonce a madonna, de lana del rey a No Doubt e ninguem tem mais respeito pelos fas do que lady gaga, sendo eles little monsters ou apenas curiosos. Queria eu ter aos meus 14 anos uma cantora que falasse abertamente sobre ser gay ou ser quem voce realmente quer ser. Gaga ganhou muito mais que meu carinho, ela ganhou meu total respeito. Sou um little monster? nao sei, mas se eu for e voce estiver achando graça desse texto, me desculpe mas FUCK YOU BITCH. PAWS UP MOTHER FUCKERS!"

Enfim.. Meu ponto nessa história toda é que eu penso que precisamos todos, especialmente os gays, trabalhar mais a própria capacidade de conviver com o diferente. Não basta apenas "aceitar", mas é preciso que haja a compreensão de que as diferenças são essenciais -- e são bacanas. Não precisa ser nenhuma Tati Pirigueti pra perceber que pedir 'aceitação e tolerância e direitos' é muito fácil quando não se consegue aceitar que alguém seja mais "excêntrico" (do SEU ponto de vista) que você.

Vi muita gente rindo dos fãs da Lady Gaga. Aliás, praticamente só vi gays rindo dos fãs da Lady Gaga. VÁRIOS postaram este vídeo aqui. Na hora que vi lembrei das risadinhas na infância. E não pude deixar de me perguntar por que essas pessoas reproduzem esses comportamentos (aliás, blog de xoxação é coisa típica de gay, já repararam?). Geral gosta de reclamar dos Malafaias e Bolsonaros, que pregam a "normalidade" e o ódio aos "diferentes", mas está sempre alerta pra apontar, rir e alijar quem for mulher mais velha que tiver namorado mais novo, hétero que não tem namorada ou mesmo gay que gosta de uma cantora que não é a sua diva favorita. Fã (os sem noção) da Madonna zoando as excentricidades dos fãs da Gaga me fazem perguntar se eles ao menos sabem o quanto Madonna era, ela mesma, contestadora e muito diferente (e, por isso mesmo, se tornou estrela tão bacana e respeitada).

Enfim, ninguém é santo, todo mundo tem direito de gostar ou não do que for, graças a Deus. Mas não custa olhar um pouco pro próprio nariz (ao invés de olhar pro próprio umbigo) e começar a conviver melhor com as diferenças; começar a apreciar a beleza do diferente, mesmo quando (inicialmente) ele nos parece apenas bizarrice. Sobretudo quando o diferente não formos nós mesmos.

Pra fechar este post gigante, e antes que eu me perca, conto um fato que ocorreu aqui em casa ano passado: minhas sobrinhas, com 4 e 6 anos, entraram no meu quarto enquanto eu assistia uma apresentação ao vivo de "Hair", que eu adoro. Assistiam caladiiinhas, maravilhadas com a música. Eu, cheio de cuidados, já me preparava pro momento em que a Gaga tira a peruca e aparece careca. Qual não foi minha surpresa (e orgulho) quando, com a aparição da carequice, a mais nova das meninas soltou um "Que linda!". Tão maravilhoso ver que elas conseguiam ver beleza além dos padrões imbecis que a gente vai assimilando. Claro que dois minutos depois minha irmã católica carismática, mãe delas, entrou no quarto e deu um grito TÃO grande porque eu tava mostrando a "cantora do satã" pras meninas que não só elas, como eu também, adquirimos um novo trauma pra vida inteira. Enfim (o 3o enfim deste post), preconceito também se aprende de novinho. E o mais triste, costuma vir de casa. E, como podemos ver, muitas vezes costuma ser ensinado por quem é vítima dele.

Fim do post, ninguém aguenta mais. E eu nem fui no show da Gaga pra aproveitar o bacana disso tudo.

Besos.


P.S.: Resumo do post imenso, by Tati Pirigueti: "Reclamar de discriminaçao quando a vitima é você é muito fácil. Discriminar pelo mesmo motivo quando você ja está à salvo das risadinhas já são outros 500, né?"
P.S.2: o post do André Mans também tá bacana.


4 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Parabéns a vc Humberto, ao SAM e ao André ... isto se chama ter discernimento e bom senso além de uma perspectiva clara de vida e valores em seu sentido pleno ...

bjão

Clenio disse...

Palmas e mais palmas... Disse tudo. Por mais que algumas pessoas saiam - E MUITO - dos padrões exigidos pelo bom-senso é preciso antes de mais nada, respeito, que é bom e todo mundo gosta.
Hoje assistirei ao show da Gaga sabendo que vou assistir a um espetáculo tremendo de profissionalismo e respeito às diferenças. Não é isso que o mundo anda precisando?

Beijos
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com

Edu ardo disse...

SUPER SUPIMPA!!! E o Sam, da licença, é pra levar pra casa e fazer cafuné! Coisa fofa dimais!!

Edilson Cravo disse...

Humberto:

Muito bem contextualizado o seu post. Os preconceitos existem em todos os segmentos e até mesmo dentro da comunidade gay que luta por direitos e esquece de respeitar os diferentes dentro do próprio gueto. Isto nos faz pensar que o preconceito está entranhado na alma das pessoas mesmo.

Abraços e linda semana.