quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Laila

O ano era 2003. 

Ali naquele lugar eu acreditava que estava começando a tornar realidade meu maior projeto nesta vida. Era só um pequeno primeiro passo, o caminho ainda era longo, mas era finalmente o primeiro passo.

Depois de ralar feito um cavalo, por um ano, como recepcionista num hotel com um gerente maluco de verdade (RIP Seu Creysson), eu juntei todas as minhas economias e fui pagar um cursinho pré-vestibular. Larguei tudo e me dediquei a estudar dia e noite pra finalmente cursar jornalismo.

Não é dos meus sonhos e menos ainda da realidade que veio depois que eu quero falar neste post. Quero falar da cena que presenciei no cursinho, ali por agosto daquele ano.

Logo nos primeiros dias de Soma eu estava sem lugar. Tinha 25 anos, uma graduação na Federal (quando isso significava alguma coisa), um ano de Universidade do Texas, e estava ali, no meio da pirralhada de 16. Mais misfit impossível. Mas a gente se igualava na ansiedade, na expectativa, na crença de que era um começo (e, no meu caso, que agora era o caminho certo).

Daí eu acabei me enturmando ali com um rapazinho, o Breno, e duas mocinhas, Laila e a Irmã da Laila (que a gente nunca soube o nome). Não demorou muito para a gente se dar conta de que o Soma era a maior enganação. Eu ficava estarrecido, por exemplo, com os erros de português nas apostilas todas.

Sempre acreditei que um gambá cheira o outro, e isso talvez explique o fato de que meus três únicos "coleguinhas" ali, assim como eu, se bancavam. Talvez também justamente por isso a gente, mais que a maioria ali, se emputecia em pagar por um ensino tão mequetrefe -- claro que tinha alguns bons professores, como o Adson de física, que era fenomenal, mas no geral, pra quem tava depositando ali todas as suas esperanças (e reservas!), o Soma tava uma boxta.

A gente reclamava, chiava, mas aguentava, né? Bem, a gente vírgula. Toda noite a Laila xingava. E xingava. E xingava mais. Eu, Breno e a Irmã da Laila ríamos. Daí numa dada noite, sei lá, três semanas de cursinho, a gente tava tendo uma aula muito ruim com um dos donos do cursinho, e a Laila estava mais inquieta que o comum. E aí ela começou: "Eu vou embora. Eu vou embora. Não aguento mais essa enganação, eu vou embora." Nós três nos olhamos, segurando pra não rir, e a Laila prosseguiu, séria, emputecida como sempre, e firme: "Eu vou embora." E então ela levantou e foi.

Na hora a gente riu, mas achou que era piti. Isso até passar um minuto e a Irmã da Laila juntar os cadernos dela (dela Laila, que deixou tudo pra trás) e correr atrás da irmã. Laila (e irmã) nunca mais voltou. Nunca mais.

Aquela cena nunca me saiu da cabeça. Porque a Laila, naquele pouquíssimo tempo de convívio (o suficiente pra adorar ela), já tinha ficado como a "louquinha". Mas no fim ela foi a única a tomar uma atitude para mudar uma situação que estava ruim (e que a gente sabia que não ia melhorar).

Toda vez que a vida ou alguma coisa específica chega no fundo de um poço me vem à mente essa cena da Laila levantando e descendo firme pelas escadas até sumir pela porta. E eu fico pensando que uma hora dessas eu vou, enfim, fazer igual: levantar, sair, deixar tudo de ruim pra trás e partir, pra onde for, pra dar a cara a tapa e recomeçar certo. Nestes últimos dias, principalmente, tenho pensado muito nisso.

Mas o simples pensar já enfraquece. "Fazer a Laila" requer, sei lá, um Divino Espírito Santo, que bate na hora, dá clareza e coragem, e faz com que você simplesmente levante e vá e faça. Queira Deus que Ele baixe logo.

Encontrei a Laila, num ônibus, uns dois ou três anos depois do ocorrido. Ela me reconheceu e mexeu comigo: "Você não é um doidinho que fez Soma comigo?" Laila estava linda. Eu estava estagiário de uma agência que não deu em muita coisa. Sim, Laila, eu era aquele doidinho. E continuo sendo o doido que até hoje não aprendeu que a vida é pra ser vivida como a gente quer e não como esperam que a gente viva.


P.S.: Sobre saídas em situações cuja única solução é a saída, ler também S.A.M. e Ibsen.
P.S.2: Pouco depois que a Laila se foi eu conheci a Jana (e consegui sobreviver ao cursinho). E lá se vão quase 10 anos de amizade . Do Breno nunca mais se soube.
P.S.3: Para Laila, com carinho:



9 comentários:

Edu ardo disse...

Fazer a Laila. Gostei da expressão! E de tudo que ela significa.

Rafa disse...

Olha que essa coisa do saber fazer a hora é das mais difíceis e sublimes da vida. Que baixe esse Divino aí sobre nós. Lindo texto. Bj

Nil Witchimichen disse...

Olha quem voltei :)

Sempre bons os teus posts, engraçado como as pessoas se admiram quando alguém tenta reclamar de algo que está errado.

Como aquela dona de bar que ficou indignada quando expulsou um casal homossexual do estabelecimento e eles relcamaram: "os outros apenas iam embora"

E que a gente consiga fazer a Laila quando precisar. =]

Diego Rebouças disse...

Querido: vá!

Lucas disse...

Eu dei uma de Laila 2 vezes na vida. Em uma me ferrei de verde a amarelo.

Leio há tempos seu (excelente) blog. Passei pra te desejar um Bom Natal e um 2013 beeeem melhor que esse que tá acabando.

o Humberto disse...

Nossa, mas eu curti TANTO esses comments todos! Brigadão todo mundo, de verdade.

Toda vez que eu tô quase fazendo a Laila e parando o blog vêm vocês, seus lindos, e me dão gás pra continuar. Saber que tem gente bacana lendo o que eu escrevo me mantém fazendo isso aqui com prazer, muito prazer.

Muito obrigado pelo carinho.
besos!

P.S.: Lucas, MUITO OBRIGADO pelo excelente! =) Faço o meu melhor por aqui. Desde já, feliz natal e feliz 2013 pra você também (e tô contigo, 2012 já deu!).

Bjo!

Caroline disse...

Parar o blog jamais!!!

Bjo

Alan Raspante disse...

Vai chegar um dia que eu também vou fazer a Laila. E, pocha, achei o texto emocionante. De verdade. Que coisa!

Tainá disse...

Adson <3