terça-feira, 2 de abril de 2013

a Lorena explica: da incrível relação entre educação, machismo, segurança pública, igualdade social e a PEC das domésticas.



Como prometido, eis o post da querida leitora Lorena Possa.
Apreciem.


E eis que, finalmente, o governo resolveu fazer uma PEC em benefício de domésticas e babás. 2013 e só agora as domésticas, de fato, são consideradas trabalhadoras com direitos tão importantes como aqueles que eu, você e seu colega que trabalho com vínculo CLT desde uns 16 anos têm (18 se você tiver uma família um pouquinho mais abastada). A importância desta PEC é maior do que ela aparentemente tem, embora as inúmeras reportagens exibidas por ai não tenham dito isso (pausa pra dizer que nojo eu sinto de gente que vai dar a cara a tapa na TV pra dizer pro repórter que “agora está difícil ter doméstica”).

A nova PEC influencia a educação dos nossos jovens. Jovens que até então foram educados por babás. Jovens que desde bebês tiveram suas fraldas trocadas por babás e domésticas que faziam isso a troco de um pequeno salário sem carteira assinada, seguro-desemprego, PIS e FGTS. Agora, papais e mamães ou irão ter que trabalhar muito para poder pagar as babás de suas crianças ou irão ter que fazer como a grande maioria da população faz: matricular o rebento em uma escolinha, trabalhar e cuidar da criança sozinhos à noite e aos finais de semana/feriados. Começa aqui o pânico de muitos pais e mães classe média: cuidar dos próprios filhos (porque eles geraram e pariram, mas eles não podem trocar fraldas e ajudar na hora da lição). Estou me coçando para daqui alguns meses dar uma voltinha na zona sul e ver menos gente vestida de branco com crianças em parques, clubes e shoppings. E mais madames e engravatados se atolando na areia do parquinho cheia de mijo de gato.

O pouco, quase nenhum, convívio com os pais e mães que nossas crianças tiveram certamente influenciarão no comportamento de nossos futuros jovens. Ou você vai dizer que não conhece nenhum playboy que vive fazendo presepadas para chamar a atenção dos pais? Jovens criados sem limites, sem carinho, sem normas, foram ontem crianças que à menor manha ou chororô tiveram pais que cediam ou chamavam a babá – que tantas vezes já estava lá, repousando em seu enorme quartinho 3x3 onde mal cabe uma cama.

Não resisto. Preciso falar: você já pensou em quem cuida dos filhos das babás e domésticas que dormem na casa de seus “patrões”? Ela não tem condições financeiras de pagar uma outra babá para cuidar dos seus filhos, como você já sabe. E, então, o que vai acontecer é: essas crianças serão criadas num misto de rua + escolas públicas ruins + avós. Com sorte, a doméstica/babá terá uma mãe aposentada gozando de boa saúde e com condições de ficar com as crianças no momento em que elas não estão naquela escola pública de péssima qualidade. E, caso você ainda não tenha entendido: essas crianças menos favorecidas financeiramente perdem suas mães para as crianças mais favorecidas. Mas e os finais de semana? E os feriados? Bom, quem já andou em um shopping zona sul já deve ter visto o combo “casal classe média andando com suas roupas de grife + atrás babá vestida de branco com bebê no colo”. Você vai almoçar no shopping domingo e vê essa cena. E eu te pergunto: é domingo e cadê a babá que não está em casa vendo “Turma do Didi” com o próprio filho? Bem, você já deve ter entendido a resposta.


Mas ai você vai dizer “o que tem a ver uma coisa com a outra?”. Eu acho que é sua obrigação saber, mas nem sempre a ficha cai, então é melhor ser bem explícita. Amigos, as crianças que não são criadas pelas suas mães que são babás/domésticas, que dormem em seus empregos, que geralmente recebem um dia de folga às segundas-feiras (porque final de semana os “patrões” precisam descansar e alguém precisa calar a criança!), bem, essas crianças aí deixam de receber carinho, amor e, principalmente, educação. E ai o que vai acontecer é: a criança vai sendo criada na rua, na casa da tia, da vizinha, da avó. Recebe influências de todos os lados e não tem uma mãe presente para corrigir à noite aquele palavrão novo que ele aprendeu no colégio, como a minha mãe teve a felicidade de fazer comigo. Não tem mãe para ajudar no para-casa. Não tem a quem correr quando sofrer aquele bullying. E aí essa criança vai crescer e vai virar um adolescente, que vai se cansar de ver a mãe trabalhando dia e noite para sustentá-lo. Mas, ironicamente, a mãe trabalha de sol a sol e continua não tendo condições de dar a ela aquele brinquedo que ele viu no comercial. Aquela roupa de marca. E os brinquedos e as roupas que ele tem são sempre as sobras que os “patrões”, tão bonzinhos, doam (quando a criança deles já não quer mais, é claro).

Quem já leu “Falcão: meninos do tráfico”, do MV Bill e do Celso Athayde, sabe: a maior queixa de crianças entre 10 e 14 anos no livro são justamente disso que eu disse acima. Eles sempre ficam com as sobras dos filhos das patroas. A sobra de roupa, de brinquedo, de afeto e de tempo. A eles, só resta isso: as sobras. O salário disso é a violência. A ilusão de querer ajudar a mãe que trabalhou anos luz na vida, mas não vai conseguir aposentar. A ilusão de ajudar a mãe que quer sair do emprego, mas não vai ter FGTS e seguro-desemprego para ajudar. E, nessa ilusão, vai entrar para o mundo do tráfico, ganhar um dinheiro rápido, sujo e violento. E as babás e domésticas da classe média vão perder seus filhos para a rua.

Os filhos da nossa classe média terão um pouco mais de sorte. Vão sobreviver. E, veja bem, eu disse sobreviver. Isso não quer dizer que serão plenos e felizes quando adultos. É bem capaz que na ausência do carinho dos pais, tempo e atenção, cresçam frustrados. Sem o entendimento de limites e nãos, vão ser adultos babacas que xingam no trânsito, arrancam braços de ciclistas porque acabaram de sair da boate em plena madrugada de domingo, idiotas que chegam atrasados no trabalho e acham que o chefe não pode lhes chamar a atenção. Completos babacas sem nenhum limite e noção da realidade.

A nova PEC, amigos, quer dizer muita coisa. Quer dizer que, finalmente, domésticas e babás são trabalhadores como eu e você. São gente como a gente. Têm salário, FGTS e horários para chegar e sair do emprego. E, finalmente, vão poder voltar para suas casas no horário certo, após 8 horas de trabalho contadas no relógio. E, assim, vão poder cuidar de seus próprios filhos, da sua própria louça, da sua própria vida. E mais: se quiser vão usar as horas que restam do seu dia para estudar e crescer na vida.

E enquanto isso, a classe média vai ter que aprender a trocar fraldas. Que a louça não volta limpa pro armário sozinha. Que é chato passar roupa social. Que o lixinho do banheiro precisa ser recolhido com frequência. E todas essas coisas que qualquer pessoa que não viveu a vida toda com babás e domésticas no encalço já sabe. E eu espero que também aprendam que limpar fraldas e conter o choro do bebê faz parte da rotina de ser pai e mãe.


Espero que a nova PEC não seja vista apenas como um aumento de gastos para nossa patética classe média. Espero que a profissão de babá e doméstica seja abolida, extinta para nunca mais voltar. E que o Brasil seja como um país de primeiro mundo: um país onde cada um limpa sua sujeira e educa seus filhos. E, uma vez por semana, no máximo duas, contrate alguém que vai lá dar uma ajeitada na sua casa, passar uma roupa, tirar uma poeira, e nada mais. Classe média, vocês vão ter que ariar suas panelas (e eu sinto uma alegria enorme ao dizer isso!).

Espero que a nova PEC dê às crianças menos favorecidas mães presentes, com condição financeira melhor e com mais tempo para seus filhos. Que essas mães possam trabalhar para viver e não para sobreviver. Por que só assim elas vão conseguir ganhar seus filhos da rua, do tráfico e da violência.

Espero que ter uma doméstica, babá e diarista seja mesmo caro, muito caro! Porque é assim que essas mulheres terão um salário digno do quanto elas trabalham. Porque o nome disso é igualdade social. É a gente poder não ter uma doméstica que ganha tão pouco e um engenheiro que ganha muito, muito mais (só porque sentaram no banco de uma escola mais vezes). Um engenheiro vai ganhar mais que uma doméstica em qualquer parte do mundo, obviamente. Mas não deve ganhar muito mais como acontece no Brasil para que a gente consiga ter igualdade social – ou chegar um pouco perto disso.

Por fim, falo do machismo. Não vou olhar estatísticas, porque nem precisa. Um número superior a 90% de domésticas e babás certamente são do sexo feminino (atividade doméstica e da criação dos filhos são obrigação das mulheres e blábláblá). E essas mulheres foram profissionalmente discriminadas até hoje. Em 2013 essas mulheres ainda ganhavam tão pouco, não tinham direitos trabalhistas e arrisco dizer que em alguns casos o regime de trabalho e as condições são quase escravocratas. Dormir no trabalho num quartinho minúsculo e abafado seis dias por semana, sem direito a quase nada. Que outro tipo de profissional se sujeitaria a isso? Engenheiros, médicos, publicitários, administradores... quem?

Os filhos dessas domésticas e babás têm pais, é claro. Mas quantos pais dessas crianças vocês conhecem que suprem a falta das mães? Enquanto elas estão lá, dormindo na casa dos “patrões”, quantos pais se fazem presentes em suas casas? Quantos pais ajudam a fazer a lição de casa? Muitos deles nem se quer registraram o filho. Não vivem mais com a mãe dessas crianças. Negligenciam os filhos de todas as formas.

Enquanto isso, os pais “patrões” estão por ai, querendo pagar para alguém trocar as fraldas que eles deveriam trocar. Dar a papinha, ensinar a lição, ver um filme junto. Lavar os pratos que eles sujam e trocar o papel higiênico quando acaba. Portanto, espero que a PEC traga também luz a estes pais. Ser pai e ser homem é isso: participar da vida do filho e de toda rotina da casa.

Que cada vez mais domésticas e babás se tornem diaristas que cobram caro, trabalham cinco ou seis vezes por semana como eu e você. Para que elas cuidem de suas vidas e que a nossa classe média aprenda a cuidar da própria vida.

Durante todo o tempo escrevi patrões entre aspas. É só para deixar claro o quanto essa palavra é ridícula e nos remete à escravidão. Desconheço profissionais que chamam seus chefes de patrão. Aliás, hoje nem é chefe mais, é “gestor”. Justamente porque ninguém gosta de se sentir diminuído.


P.S.: Eu sou filha de pais trabalhadores que lutaram muito para sustentar a mim e a minha irmã. Minha mãe trabalhou até o sábado pegando três ônibus para ir e três para voltar do trabalho como vendedora em um shopping zona sul. No domingo pela manhã eu nasci de uma cesariana. Quatro meses depois ela voltou ao batente, e eu fui para a escolinha. Meus pais se revezavam entre levar/buscar/cuidar. Eu não cresci traumatizada por isso, mas tenho um puta orgulho da história dos meus pais e da batalha que eles travaram para me criar. Eles já trabalharam viajando Brasil afora, em casa, longe de casa, enfim: mas sempre fizeram questão de ser pais no sentido mais estrito da palavra. (Tudo isso que eu disse só foi possível porque ao lado da minha mãe eu tinha um pai presente. Que sempre entendeu que tarefa doméstica é obrigação de todo mundo que mora na casa. E que criação de filho é obrigação de mãe e de pai, igualmente).
P.S.2: Durante uma curta fase de nossas vidas tivemos uma empregada doméstica (odeio essa expressão). E ela tinha carteira assinada, 30 dias de férias e nunca trabalhou finais de semana e feriados. Hoje, tenho uma diarista uma vez por semana, devidamente registrada. E torço para que continue assim.


2 comentários:

Ravenna disse...

Nossa, que texto, concordo com tudo. Vou usar como argumento sempre que algum idiota falar alguma asneira sobre isso.

Heron Xavier disse...

Humberto, que texto excelente da Lorena!

Excelente é pouco, este texto é supimpa! Repassar um dever que é seu para terceiros dá no que vemos hoje: falta de respeitos com os pais, avós e os próprios profissionais domésticos.

Só no Brasil que classe média tem empregada. Para quê trabalhar se o dinheiro vai todo para ela? Que fiquem em casa, cuidando de seus filhos, dando-lhes estudo e construindo seu caráter.

Parabéns à classe doméstica.