quinta-feira, 25 de abril de 2013

os 6 anos

-"Olha como ele tá lindo!"

Tem gente que tem memória de Dory, e não lembra de nada. E tem gente que tem memória de Sheldon, e lembra de detalhes de momentos tão longínquos que outra pessoa pensaria que são lembranças inventadas.

Não sei se por benção ou castigo, Deus me deu uma memória das boas. Eu lembro de coisas muito muito antigas. (Talvez meu castigo seja lembrar de bobagens antigas e não guardar coisas úteis, como fórmulas matemáticas e afins).

O fato é que eu lembro bastante da minha infância, daquela mais antiga mesmo. Ainda assim, alguns anos atrás, eu me dei conta de que as lembranças eram contínuas a partir de uma certa idade. Do que vinha antes disso eu lembrava apenas de acontecimentos isolados. 

Um desses acontecimentos isolados foi a vinda da minha prima carioca aqui pra roça. Eu lembrava dela adolescente, fã número 1 do Éder, que jogava no Atlético e na Seleção Brasileira naquele 1982 de Copa da Espanha. Ela passou uns dias aqui em casa. Quando uns anos atrás ela veio nos visitar novamente, já curioso sobre esse período de poucas recordações, eu perguntei a ela se lembrava de mim, de como eu era, do que eu fazia. E ela nem pestanejou: "Você era quietinho, sempre quietinho, estava sempre sentando num cantinho, cheio de papéis e revistinhas, desenhando e rabiscando."

Daí eu lembrei. Era bem isso mesmo. Em 82 eu tinha cinco anos e estava sendo alfabetizado pela minha irmã. Minha prima um ano mais velha, com quem eu brincava, tinha acabado de entrar no prezinho e eu me ressentia muito de ficar sozinho e de não poder ir pro prezinho também. Então eu me virava em casa, torcendo pra passar logo o tempo (que demora uma eternidade quando você é novinho) pra eu poder ir pra escola também.

A única coisa que eu sabia escrever em 1982 era meu nome – que eu descobri que era Humberto quando minha irmã me obrigou a escrever Humberto (me chamam pelo nome do meio aqui em casa, e até então eu jurava que era só aquele meu nome). Assim, sem nenhuma cerimônia, escrever me deu logo de cara uma identidade. O mínimo que eu sabia escrever já era um mínimo que fazia de mim alguém.

Quando 1983 chegou, trouxe a melhor coisa que poderia ter acontecido pra mim naquela época: a escola. E eu lembro nítida, mas nitidamente do momento que eu tomei meu banho (sozinho) e me vesti (sozinho) e fui até a sala pra me levarem pra aula. E foi aí que minha outra irmã falou: "Olha como ele tá lindo!" E só pelo tamanho do sorriso que eu sei que eu dei eu devia mesmo estar lindo. Todo orgulhoso de mim, com meu uniformezinho de xadrez azul claro, minha merendeira, cartolinas e minha pasta amarela na mão.

Mesmo naquela hora em que as mães vão embora e os filhos ficam se esgoelando eu não chorei. E essa é outra lembrança bem clara: eu olhava pras crianças todas e me perguntava: "Por que eles estão chorando?". Aos 6 anos, idade em que a gente normalmente ia pra escola no começo dos anos 80, eu acho que já era adultinho demais. Fato é que de lá pra cá lembro de praticamente tudo que se passou na minha vida. Desde os 6 anos, quando eu realmente comecei a escrever. 

Hoje, três décadas depois dessa história toda, quem celebra seus 6 anos é este blog. Que nasceu e que persiste por conta dessa minha paixão pelas palavras. Porque escrever é o que me lembra do que eu gosto, do que eu vivi e, especialmente, da pessoa que eu sou.

Muito obrigado a todos que me leem.
Muito obrigado!


9 comentários:

Edu ardo disse...

E que blog supimpa, de um cara ainda mais supimpa, é este!! Parabéns!!

Diego Rebouças disse...

Você é uma riqueza. Mas mesmo que eu não tivesse o prazer de ter sua amizade pessoalmente, ainda assim, acho que seria leitor fiel do seu blog. Porque eu sinto em cada linha do que você escreve (e em cada entrelinha também) essa ética que diz que um ser humano é um escritor, esse seu compromisso com a palavra, com o que ela tem de argila, de moldável para formar um sentido.

Te admiro muito, querido. Parabéns.

Edilson Cravo disse...

Humberto:

Parabéns querido, que vc continue escrevendo coisas tão especiais como este texto aqui.

Beijo.

Caroline disse...

Amigo parabéns! Fiquei emocionada com seu texto. Sempre com o dom das palavras.

Somos nós que devemos agradecer o prazer de ler todos os dias textos incríveis.

Bjo e sds.



Reginaldo disse...

rs confesso que a minha memória é a de "dory" mas já no meio do seu texto me lembrei do meu primeiro dia na vida em uma escola, e que os cadernos foram encapados com um plástico quadriculado azul como na ilustração do seu post e com etiquetas. Me veio na cabeça até o nome da professora, Susy!! e que eu fiquei sentado em um elefante verde! me lembrei até do banho que me deram na escola aquele dia! Putz!!
Bem, mas o objetivo aqui foi parabenizar pela sua persistência! um dos poucos blogs que costumo ler sempre. Parabéns!

Mr. TV disse...

eu te leio sempre e muito do q vc posta serve como ideia para os meus relatórios de faculdade, vc é a minha inspiração, te amo de um jeito bem sincero ;)

Lobo disse...

De nada (aqueles! hahaha)

A lembrança do meu pré mais vivida até hoje é quando eu jogava o dinheiro da minha merenda de cima do escorrega enquanto vi os colequinhas lá embaixo se matando por ele. Aí meus pais descobriram e passaram e me dar merenda pra levar invés de dinheiro ahauhauahuah

Parabéns pro blog!

Heron Xavier disse...

Parabéns pelos 6 anos de blog Humberto!!!!!

Abração!

Alan Raspante disse...

Mas que coisa mais linda!

Eu não tenho uma boa memória. Incrivelmente, eu lembro muuuito pouco da minha infância, de tudo. Não sei, mas tenho uma péssima memória mesmo.

Anyway, parabéns (mesmo que atrasado!).