domingo, 25 de agosto de 2013

revista fe-menina

As coisas andam tão corridas que eu mal tenho tido tempo de escrever aqui, mesmo querendo muito e mesmo cheio de assuntos. Este post que escrevo, por exemplo (e que escreverei de forma bem corrida, infelizmente), é o complemento muito adiado do último post publicado, lááá no dia 07 deste mês.

O assunto é a tal edição da TPM onde a revista tira onda com a cara (e a capa) da Nova. Leitores mais antigos devem saber que apesar de até gostar da revista, sempre achei que a TPM é só mais uma feminina no mercado, talvez a menos interessante para as mulheres (na verdade não posso afirmar, porque mulher não sou, apenas observo); Devem saber também que me cansa bastante isso de ela querer pagar de diferente (e melhor) que as demais publicações do gênero.

Enfim, daí lançaram a tal edição, e como foram mais explícitos desta vez, comprei na hora. Queria ver o que vinha de bombático, o que ia deixar claro essa diferença (e essa superioridade toda) da revista da revista em relação à Nova (e às outras todas).

Devo dizer que com a revista em mãos, olhando com calma e lendo as chamadinhas o que senti foi constrangimento. Parecia aquelas piadas de tio sem graça em festa de família, sabe como? Ou então coisa de adulto-adolescente, do tipo que não cresce nunca e precisa ainda de atenção. Mas OK, até aí, apenas uma sensação. Então abri a revista pra ver o que a adulta-adolescente tinha tanto a falar da prima adulta piranha.

Logo na segunda e terceira capas, um editorial do diretor da revista, Fernando Luna. Ele repete todo o discurso de que as leitoras das outras revistas todas são enganadas por essas publicações, que, segundo ele, vendem ilusões. O primeiro parágrafo: "Se o Procon lesse as revistas femininas, não sobraria quase nenhuma nas bancas." O curioso (e o ato falho) é que, bem, a TPM tá incluída nesse balaio, né? Ou ela não é revista feminina? Seria a TPM uma revista masculina para mulheres (bem, é mais ou menos isso o que eu sempre achei da Trip Para Mulheres; com o importantíssimo detalhe de que a versão para mulheres nunca me pareceu ter metade da qualidade da original masculina). Daí o diretor segue o texto falando que as revistas femininas (as outras, não a dele) vendem ilusões sobre beleza, trabalho, relacionamento. Fecha com a "capa" cool da revista, Alice Braga sorrindo, relax, "tamo aí, meu", cool pra sempre.

Termino a leitura desse manifesto contra as más intenções capitalistas que conseguem a proeza de enganar mulheres adultas, viro a página e vejo:

Um anúncio de produtos de beleza que vão te deixar mais bonita, querida leitora. By the way, produtos de beleza da marca que patrocina o evento anual da revista (falo dele adiante). By the way também, a mesma marca que anuncia nas outras revistas más, que querem te enganar, mulher.

Viro o anúncio e vejo:

O anúncio de uma academia, cheio de imagens de corpos sarados, pra você malhar e ficar com o corpo IGUALZINHO o das modelos, cara leitora adulta, cool, que não se importa com o corpo e que acha que isso é coisa das revistas femininas mentirosas.

Viro mais esse anúncio e vejo:

O anúncio de um carrão que você, cara leitora preocupada com o meio ambiente e com o transporte público e com questões de interesse da coletividade, tem que ter pra mostrar que tem dinheiro, status e estilo.

Estupefato, viro a página e vejo:

O anúncio de um banco (o mais singelo deles, diga-se de passagem), estrelado por gente loira e lisa. Porque não é porque você é cool que não vai poder gostar de dinheiro, não é mesmo, cara leitora adulta que não é enganada por revistas capitalistas que só querem te iludir e fazer você consumir?

Insisto, viro a página e vejo:

O anúncio de uma marca que diz: "Todo mundo usa". Não é você que vai querer ser diferente, né leitora da TPM que é diferente de todo mundo?

Quando viro a página, enfim, vem o índice (e outro anúncio).

Precisa dizer mais alguma coisa? Precisar não precisa, mas lá vai (e vai que só tenho tempo de voltar a escrever daqui a um mês?). O conteúdo editorial da revista (que no frigir dos ovos é mínimo) segue a mesma ladaínha de que as ooooutras revistas são publicações interessadas apenas em estimular o consumo e iludir as leitoras e de que a TPM é diferente e bem intencionada e cool e que as mulheres que leem são as mais inteligentes. Olha, é uma coisa que beira o "belém, belém, nunca mais fico de bem". Continuo com aquela impressão de que é uma revista bacaninha, mas que não alcança mulher nenhuma. Não uma mulher real. É uma revista feita pra uma mulher idealizada. Se as outras vendem uma ilusão, TPM com certeza vende (veja bem, VENDE) outro tipo de ilusão. No fundo são todas iguais.

Pra falar mais eu acabaria repetindo tudo que já disse sobre a revista aqui no blog. Então seria ideal parar por aqui. Mas daí, porque os amigos daqui são um brilho só, recebi do Augustto Paes esta maravilha de link. Este aqui! Se não der pra ler hoje (porque meu texto já foi enorme, eu sei), volta aqui, clica, e lê uma outra hora. É absolutamente preciso, coerente e necessário. Fala sobre esse "feminismo de farmácia" da TPM. E encerra o assunto.

Eu não encerro porque eu adoro a troca de ideias. Pelo que observo, ninguém que eu conheço, sobretudo as mulheres, lê a revista. Mas se alguém lê, se alguém leu essa tal edição, enfim, quem quiser comentar, vamos lá. Vamos conversar. Eu fico interessadíssimo em saber, especialmente das mulheres, se elas leem revistas, quais, por quê... se tem alguma leitora que realmente se sente enganada por elas... Me contem!
:-)

Abraços pra vocês, sempre que tiver um tempo eu volto aqui, sim.
Beijos.


P.S. Grande:
A tal capa/edição deste mês da TPM é praticamente o anúncio de um evento da revista, chamado "Casa TPM", o qual tive o prazer (??) de participar (como público, evidentemente).

Apesar do nome, que remete a uma imagem da dona de casa, que, prendada, recebe em seu lar (e o local, finíssimo, era mesmo uma casa muito aconchegante), o evento foi descrito pela revista como sendo "para quebrar os estereótipos femininos que estão aí desde o tempo da sua avó". Sei.

A primeira coisa que me chamou a atenção lá foi o público. Achei que iam me pedir pra sair. Nunca vi tanta gente branca na minha vida. Não serei racista ao contrário (aliás, de jeito nenhum), mas olha, quanta mulher caucasiana. E quanta gente ricamente vestida. Me desculpa, mas se tinha pobre ali, essa pessoa vive das melhores permutas. Infelizmente eu não consegui fazer uma foto do momento em que a única mulher negra que eu vi recolhia o lixo das elegantérrimas mulheres brancas enquanto essas discutiam as injustiças contra as mulheres... Coerência é tudo nessa vida.

Cheguei bem na hora em que ia começar a palestra de Didi Wagner sobre casamento. "Mas, Humberto, quem é Didi Wagner? Especialista em casamento?". Bem, Didi Wagner é essa intelectual aqui, vocês devem lembrar. E pelo padrão TPM, ela é bonita, é cool e é casada, logo parece suficiente pra formular questionamentos e elaborar respostas sobre a realidade do casamento hétero e homossexual no século XXI. Eu nem vou descrever as sábias palavras ditas em pouco mais de quinze minutos. Sugiro que vocês assistam. Olha, sem palavras mesmo. (Observação: vi que não disponibilizaram o vídeo: HAHAHAHA! Adoro).

Depois vi um debate sobre moda. De novo, festival de pérolas e clichés. Ao menos uma das palestrantes, Cris Zanetti, fez boas ponderações, até pra equilibrar com todas as bobagens proferidas pelas outras duas. E pra fia que falou que só as redes de fast fashion recorrem ao trabalho escravo, beijo da Le Lis Blanc.

O ponto alto pra mim foi a palestra mais esperada, sobre feminismo, com a feminista número 1 do twitter. Aquela mesma que costuma responder com um "Aff!" aos diferentes pontos de vista. Aquela mesma que tava criando um tumblr com fotos de homens barbados, "que é como todo homem deve ser", poucos dias depois de marchar numa passeata contra os estereótipos de beleza feminina. Enfim. Daí veio a moça, super aplaudida, super aguardada. Ela disse que estava maawwwlllnnn, que tava passando maaaawwwwlnnn..., fez uma manha, sentou... não disse nada... foi aplaudida... não disse nada de novo, foi aplaudida... daí soltou que foi abusada aos 13 anos (oi?), foi aplaudida (oi???)... não disse mais nada de novo, foi aplaudida... foi embora. Desculpa a franqueza, mas tománocu, né? Muito, mas muito fácil viver da fama de feminista desse jeito. Ainda bem que eu fui tachado de machista por uma coleguinha do Twitter.

Mais tarde houve um debate sobre sexo contando com a presença da Regina Navarro Lins, Léo Jaime e uma outra feminista de Twitter. Regina salvou a noite (e meu único dia de folga na semana) com seu bom senso. Em determinado momento, e sem medo de apanhar do público cool, afirmou categoricamente que é feminista, mas que é contra esse feminismo que luta contra o homem. Foi tão aplaudida que eu acho que até os mais cools ali presentes tavam de saco cheio das baboseiras que a gente ouviu a tarde toda (ninguém consegue ser tão cool assim).

O evento foi apresentado pela sempre bacana Sarah Oliveira e, apesar das incoerências todas, valeu. Confesso que tava com um leve medo de apanhar ali, mas no fim já tinha gente ao meu lado concordando comigo. De toda forma, certeza que ano que vem serei barrado, rs.

Inté, gente.
Público da 'Casa TPM': Gente fina, elegante e sincera.


3 comentários:

Caroline disse...

Nossa tentei ler essa revista várias vezes e não consegui. Pra mim, a TPM não tem uma identidade definida. Quer ser diferente das outras, mas nem sabe como.
Assim, prefiro as outras mesmo...Nova, Estilo etc, pois nestas revistas já sei o que vou encontrar e pronto.

Bjo e belo texto.

Tati disse...

Gosto muito dos teus pensamentos, e te digo que por um tempo eu até assinei a TPM para contrapor com a Criativa, a outra revista que costumava ler. Uma mulherzinha, a outra diferentona. Nenhuma dessas revistas cumpre um papel muito além de vender a imagem feminina, só que o fato da TPM tentar mascarar esse propósito com o selo "cool" demais às vezes incomoda.
Ainda gosto da revista, mas não consigo encará-la como nada diferente das outras.

Alan Raspante disse...

Ou seja: uma hipocrisia (por parte da revista) sem fim, né?

Como você mesmo disse: no fim, é tudo do mesmo "balaio" e vivem da mesma forma e do (quase) do mesmo público.