domingo, 28 de abril de 2013

dia das mães – escolhas de marketing

Dia das mães chegando e uma coisa me chamou a atenção este ano: as escolhas do pessoal do marketing de algumas empresas. Vou destacar duas aqui.

Primeiro, parabéns pra Hering, que fez uma escolha bacana de estrela, a Flavia Alessandra. É uma atriz bonita, tá no ar, e por tudo que se sabe é uma boa mãe de duas filhas tão lindas quanto ela. As fotos ficaram ótimas, coerentes e super atuais, dando bem a ideia de uma mulher que sabe cuidar tão bem dos filhos quanto de si mesma. Achei acertadíssimo

Daí, por outro lado vem Riachuelo e faz isso aí abaixo.

Então, Claudia Leitte já é sempre uma escolha ótima né? (NÃO). Aí ainda me botam a mulher sozinha, vestida de piriguete, super sensualizando como se estivesse na capa da Nova. Porra, qual a relação disso com Dia da Mães? Claro, mãe também é gente, mãe não precisa abrir mão da vaidade, mas né?, cadê senso de adequação? Essa campanha aí poderia rolar numa outra hora qualquer, não há nada que a conecte com a ocasião.

Pra piorar, a riachuelo ainda faz isso:

Francamente, Riachuelo, é Dia das Mães ou Halloween? Deus do céu, vamo investir no inglês e respeitar os clássicos dos Anos 80, minha gente.

Enfim, isso tudo deixa a gente pensando no tipo de imagem que cada empresa quer construir de si mesma. Dá pra criar vínculo com uma marca que encara desse jeito uma data dessas, toda ligada ao afeto e aos sentimentos mais nobres? 


P.S.: De novo, parabéns Hering, me contrata!
P.S.2: A observação deste post era sobre as escolhas das empresas mesmo, nada com relação às célebres escolhidas. Mas em se tratando de Cláudia Leitte e maternidade, impossível não lembrar disso aqui.

Inté.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

os 6 anos

-"Olha como ele tá lindo!"

Tem gente que tem memória de Dory, e não lembra de nada. E tem gente que tem memória de Sheldon, e lembra de detalhes de momentos tão longínquos que outra pessoa pensaria que são lembranças inventadas.

Não sei se por benção ou castigo, Deus me deu uma memória das boas. Eu lembro de coisas muito muito antigas. (Talvez meu castigo seja lembrar de bobagens antigas e não guardar coisas úteis, como fórmulas matemáticas e afins).

O fato é que eu lembro bastante da minha infância, daquela mais antiga mesmo. Ainda assim, alguns anos atrás, eu me dei conta de que as lembranças eram contínuas a partir de uma certa idade. Do que vinha antes disso eu lembrava apenas de acontecimentos isolados. 

Um desses acontecimentos isolados foi a vinda da minha prima carioca aqui pra roça. Eu lembrava dela adolescente, fã número 1 do Éder, que jogava no Atlético e na Seleção Brasileira naquele 1982 de Copa da Espanha. Ela passou uns dias aqui em casa. Quando uns anos atrás ela veio nos visitar novamente, já curioso sobre esse período de poucas recordações, eu perguntei a ela se lembrava de mim, de como eu era, do que eu fazia. E ela nem pestanejou: "Você era quietinho, sempre quietinho, estava sempre sentando num cantinho, cheio de papéis e revistinhas, desenhando e rabiscando."

Daí eu lembrei. Era bem isso mesmo. Em 82 eu tinha cinco anos e estava sendo alfabetizado pela minha irmã. Minha prima um ano mais velha, com quem eu brincava, tinha acabado de entrar no prezinho e eu me ressentia muito de ficar sozinho e de não poder ir pro prezinho também. Então eu me virava em casa, torcendo pra passar logo o tempo (que demora uma eternidade quando você é novinho) pra eu poder ir pra escola também.

A única coisa que eu sabia escrever em 1982 era meu nome – que eu descobri que era Humberto quando minha irmã me obrigou a escrever Humberto (me chamam pelo nome do meio aqui em casa, e até então eu jurava que era só aquele meu nome). Assim, sem nenhuma cerimônia, escrever me deu logo de cara uma identidade. O mínimo que eu sabia escrever já era um mínimo que fazia de mim alguém.

Quando 1983 chegou, trouxe a melhor coisa que poderia ter acontecido pra mim naquela época: a escola. E eu lembro nítida, mas nitidamente do momento que eu tomei meu banho (sozinho) e me vesti (sozinho) e fui até a sala pra me levarem pra aula. E foi aí que minha outra irmã falou: "Olha como ele tá lindo!" E só pelo tamanho do sorriso que eu sei que eu dei eu devia mesmo estar lindo. Todo orgulhoso de mim, com meu uniformezinho de xadrez azul claro, minha merendeira, cartolinas e minha pasta amarela na mão.

Mesmo naquela hora em que as mães vão embora e os filhos ficam se esgoelando eu não chorei. E essa é outra lembrança bem clara: eu olhava pras crianças todas e me perguntava: "Por que eles estão chorando?". Aos 6 anos, idade em que a gente normalmente ia pra escola no começo dos anos 80, eu acho que já era adultinho demais. Fato é que de lá pra cá lembro de praticamente tudo que se passou na minha vida. Desde os 6 anos, quando eu realmente comecei a escrever. 

Hoje, três décadas depois dessa história toda, quem celebra seus 6 anos é este blog. Que nasceu e que persiste por conta dessa minha paixão pelas palavras. Porque escrever é o que me lembra do que eu gosto, do que eu vivi e, especialmente, da pessoa que eu sou.

Muito obrigado a todos que me leem.
Muito obrigado!


sexta-feira, 19 de abril de 2013

and so it is



Eu já contei isso aqui, em algum outro post perdido por aí: eu estava de pé, conversando, no meio do povo, e ele veio na minha direção. Veio porque tinha que vir, porque era pra ser. Veio pra ficar. (e que fique o quanto quiser, que fique feliz, que fique por muito tempo).

Daí que eu de tempos em tempos sempre paro pra pensar no por quê algumas pessoas surgem na minha vida, no como elas surgem, no por quê algumas permanecem e outras se vão. Elas se vão porque seria um inferno a vida com tanta gente no seu círculo de amizade. Imagina se meu amiguinho Marcelino, do prezinho, 30 anos atrás, ainda andasse comigo, avalia o esgotamento emocional?

Mas tem gente que fica. Não que as que se vão não tenham sido importantes ou especiais, muito pelo contrário. É só que a vida é assim mesmo. A vida é movimento, e como todo mundo tá vivo, todo mundo tem direito de fazer parte da sua história ou deixar de fazer, e você não tem muito o que fazer a esse respeito. A não ser agradecer.

Conversando com um amigo, a gente falava disso. Ele surgiu do nada, uns anos atrás. Apareceu no Facebook, me adicionou na cara dura. Eu levei meses pra aceitar, porque nunca fui de adicionar estranhos. Além disso, pra cagar ainda mais pro lado dele, ele era amigo (no Face) de uma das pessoas mais mau caráter que eu tive o desprazer de conhecer. Anyways. Se tornou um bom amigo. O mau caráter eu espero que tenha sido traficado pra Turquia, é o melhor que posso desejar a ele.

Mas o ponto era esse. Até o traficado (digo, o mau caráter), que curiosamente esteve na minha vida em dois momentos, teve seu valor. A "decepção" (porque nunca foi alguém por quem eu pusesse a mão no fogo) com ele me fez mais atento. E ainda me deixou um bom camaradinha.

Todo mundo, quem vem e fica, quem vem e vai, quem te fez bem, quem aparentemente não fez, todo mundo que passa na sua vida, passa por um motivo. E o motivo é te fazer crescer. 

Eu agradeço, no fundo, no fundo, pela oportunidade de ter convivido ou estado com cada uma dessas sei lá quantas pessoas que fazem minha história. Abraçarei e rirei com muitas ainda, brigarei pra cacete com outras tantas. Mas isso tudo é o que vale. Tudo isso é o que faz sentido.


P.S.: Vou ser muito franco: esse papo todo sobre as pessoas que a gente vai conhecendo já vinha rolando mesmo, e eu sempre, sempre me pergunto que pessoas ainda conhecerei. Mas a vontade de escrever este post veio de uma coisa medonha que aconteceu no fim da tarde de ontem. No meio da multidão, às 5.30h, no centro nervoso de TuBHcanga, dois caras vinham em minha direção; eu, sempre afoito, procurava uma loja e atravessei a rua; naquele segundo que eu mudei minha rota um deles tirou um FACÃO (???!!!) (e de onde??) e assaltou uma moça que estava onde eu estava antes. Eu levei uns minutos pra acreditar no que tava vendo. Vim com isso na cabeça, pensando no que uns chamam de coincidência, outros de destino, outros de sorte e outros ainda de Deus. Olha, a vida é punk. E a segurança pública aqui na roça é uma vergonha.

P.S.2: Hoje faz sete meses que se foi uma das pessoas mais importantes da minha história. E um dos motivos pelos quais sou grato a ele são os bons amigos que me deixou. Fora que eu tenho certeza que é coisa dele eu ter encontrado a lindura de pessoa importante da minha história que eu citei no começo deste post.

P.S.3: Pra fechar as coincidências, aquele mesmo amigo que apareceu do Face do escroque me mandou este texto, que, basicamente, diz com muito mais clareza tudo o que eu gostaria de ter dito aqui.


Beijo a todos, bom fim de semana pra gente.


terça-feira, 16 de abril de 2013

em pele de cordeiro

Olá povos deste blog! Tô sumido, eu sei. Me cobraram posts novos esses dias. Tô pra dizer que tem uma lista de uns 15 rascunhos encaminhados aqui, mas aquela inspiração pra sentar e escrever tá meio de folga. E eu ainda prefiro esperar do que postar um textinho meia-boca. Além disso, quando o santo baixar eu publico logo 30 posts (e ninguém vai ter tempo pra ler :P)

De toda forma, vamos lá, vamos tentar falar sobre alguma coisa... bom, das coisas que tenho pensado ultimamente (e eu tenho pensado muito, mas também muito me segurado pra não escrever a respeito), há uma que até já mencionei aqui no blog: lembram de eu ter falado do PAVOR que eu tenho de gente que te "admira" tanto que vira você? Lembram?

Eu ando observando esse comportamento em algumas pessoas, mesmo que de forma sutil. E eu acho bizarro, muito bizarro. Penso que é um nível de recalque patológico, de forma que a pessoa perde a própria personalidade (se já teve alguma) e se empenha mais em copiar o que é do outro. Isso é triste.

O que dizer então de gente que fica em cima de você, dizendo pra você "parar com isso, pra não estudar tal curso, não usar tal roupa, não cortar o cabelo de tal forma", sabendo que você se sente bem assim, que isso te faz feliz, e logo que você cede (you fool!) ele vai lá e se matricula no tal curso, usa a tal roupa e corta o cabelo exatamente do jeito que você usava?

Me lembra aquela novela (mala) da Gloria Perez, "Caminho das Índias". Era exatamente o que rolava com as personagens da Letícia Sabatella e da Débora Bloch, não era? A psicopata que se fazia de amiga da trouxa pra tomar tudo que ela tinha, apenas pelo prazer de tomar o que era da outra e acabar com a felicidade dela.

É, negaiada... abre o olho. A gente se acha muito esperto, mas o que tem de lobo em pele de cordeiro (ou de crocodilo, já que nem todas têm um bom dermatologista)... abre o olho.

Volto em breve, com posts que façam algum sentido. Prometo. 
Besos.


P.S.: Textinho meia-boca, não falei?
P.S.2: Se não me engano, foi na onda dessa novela e personagem que aquela mulher psiquiatra começou a ir em tudo quanto é programa e publicar um livro por semana. Eu confesso que gostava de vê-la nas entrevistas, também quase toda semana no "Sem Censura", mas quando eu finalmente li um dos seus livros... Jesus Sacramentado!, como são ruins, rasos e muito, muito mal escritos. Sério, eu só conseguia pensar que uma médica que escreve mal desse jeito não pode ter sido uma boa aluna de medicina. De verdade, super não recomendo os livros dela e acho que se alguém decide se consultar com ela, depois de ter lido qualquer uma de suas obras, então é porque tá meio louquinho mesmo.

Upgrade praticamente na mesma hora: Digníssima leitora Helena de Tróia (chiquérrima) já leu o post e já mandou essa belezura de link aqui, ó. Como comentar? :D

bem isso

Se a vida ainda não te ensinou isso aprenda agora. 
E não esqueça nunca mais.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

to Milu with love




just can't stop ♥ing Supermodels



Ah, aquele tempo em que eu era o "menino das modelos", rs... tão boas lembranças! Que falta você me fez, Dona Internet.


o objetivo era a música



Leitores mais atentos já devem ter reparado que de tempos em tempos aparece aqui um post falando da mesma coisa: minha frustração por não ter talento pra música, minha inveja (saudável, me respeitem!) de quem vive da música.

Sei que todo mundo me associa às revistas, e de fato esse é um assunto que eu tenho grande interesse e algum conhecimento, mas definitivamente a coisa que mais mexe comigo é a música. Música é algo que alcança uma dimensão do ser em mim que eu ainda não consigo dominar integralmente. Só a música me proporciona uma elevação que nenhuma outra experiência me dá.

Aqueles arrepios ao som de um R.E.M., aquele êxtase com Callas (ou com o Woodstock!), aquela sensação que vem de toda música de verdade, isso é coisa que nada mais no mundo me proporciona de maneira igual.

Minhas muito humildes palavras nesse muito tosco blog, claro, não vão dar conta de expressar o que eu gostaria (ainda que, como dito, este seja o enésimo post a respeito). Se soubesse fazer música talvez eu desse conta do recado.

Deixo para os abençoados cantantes que aqui me fazem companhia a tarefa de emocionar vocês (tem um pouco de tudo).

Um bom dia.








♪♫♪♫♪♫♪♫♪♫


dos caracóis do meu cabelo

Daí me olhou e me disse que eu tinha os cabelos da minha mãe e que eu os penteava do mesmo jeitinho que ela faz, e descreveu com detalhes precisos como é.

Eu ri por dentro, me perguntando se assim tão bom pra perceber algo que outro normalmente não perceberia nem eu mesmo se seria capaz de perceber também o quanto aquilo só me fez amá-lo mais.

Não costumo esquecer esse tipo demonstração de afeto, não.

Boa noite.


sábado, 6 de abril de 2013

amigo

Taí uma tirinha que define muito bem ao menos um dos traços da minha personalidade. Nunca consegui me aproximar de alguém pensando no tipo de benefício, especialmente material, que essa pessoa poderia me trazer. 

Pode até ser uma falha de caráter minha. Pode ser uma inabilidade ou uma maneira equivocada de ver as relações interpessoais. Mas eu costumo me aproximar de alguém pela energia que ela me transmite, em primeiro lugar. Pra isso se tornar uma relação costuma ser preciso que a pessoa me transmita confiança e que me faça ter admiração por ela. Sobretudo, eu gosto de estar rodeado de gente que me parece ter bom coração, dignidade e o que eu costumo chamar de berço, que é aquela vergonha na cara que a gente normalmente adquire cedo, em casa, com pai e mãe. Se você tem, sabe do que eu tô falando.

Me julguem, mas eu tenho até uma certa aversão de gente que se envolve, e às vezes até depende, com outra pessoa unicamente com o propósito de ter algum benefício em troca nessa relação, seja material ou de "status". Me dá um certo desprezo, eu confesso.

Normalmente as pessoas chamam minha atenção num sorriso. E elas me ganham na inteligência, na firmeza e, sobretudo, na alegria. Se eu sentir que estou conseguindo corresponder ao bem-estar que estão me dando, aí mesmo é que o laço está criado.

Comigo funciona assim. Mas somos todos diferentes, e cada um sabe o que lhe faz bem. Se estar com as pessoas por interesse faz bem a uma pessoa, então tudo bem também... só tenho certeza de que esse é o tipo de gente que não vai se envolver comigo; tanto porque eu não consigo lidar com elas quanto, sejamos realistas, porque eu não tenho nada que possa interessar a gente desse tipo.

Beijo, bom fim de semana pra vocês.


P.S.: Sobre networking, que passa um pouco por esse assunto... olha, quem sou eu pra falar de mercado de trabalho?... Mas considerando minha história profissional, e as pessoas e líderes com as quais convivi nesse âmbito, o meu entendimento de networking é que ele significa justamente aquela relação que você vai construindo com pessoas que trabalham com você, direta ou indiretamente, através do seu bom trabalho e da sua boa conduta profissional e pessoal. Acho que é dessa forma que você consolida seu nome, que você se torna reconhecível no meio. 

Até sei que tem gente que se aproxima e bajula pessoas influentes e tal... na verdade sei que tem gente que faz carreira só amparado na babação de ovo. Mas de novo, ao menos comigo, não é assim que funciona. Como disse, não sou expert no assunto. E minha situação talvez seja um indicativo de que eu tenha muito o que aprender a esse respeito, no mínimo, talvez, tenha que me atualizar.

P.S.2: O título original deste post era (a) conta comigo. Mas eu achei que o foco era em amizade sincera, não em gente que compra os outros. Então ficou amigo mesmo, sempre muito melhor, né?


quarta-feira, 3 de abril de 2013

poupança

Porque, afinal de contas, piscianos são seres bonzinhos que são só amor, não é mesmo?


P.S.: Brincadeira, né gente?
P.S.2: NECESSITO guardar dinheiro.


terça-feira, 2 de abril de 2013

Clara Nunes

Eu não sei bem desde quando ou o que foi que me fez ter por Clara Nunces a simpatia que tenho. Eu devo tê-la ouvido muito nos meus primeiros anos de vida, porque eu lembro direitinho da comoção quando ela morreu, 30 anos atrás. Eu era muito novinho ainda, e eu mesmo fiquei chateado.

Considero uma das vozes mais poderosas da música brasileira. Acho uma mulher de uma beleza igualmente poderosa, um dos sorrisos mais lindos que eu já vi (e é o mesmo da minha amiga Janaína).

Além disso, tenho particular interesse por ela pelo fato de sua biografia passar muito pela história dos meus pais (desde cidade de origem até o fato de ela ter vivido na mesma rua de onde digito este texto).

Cada uma das imagens que ilustram este post tem um link pra alguma música de Clara Nunes que eu adoro. Deliciem-se.

Vale também ver esta entrevista, feita pela Leda Nagle. E tem esta matéria do Nelson Motta, pra quem tiver mais paciência (por causa dele, não dela, claro).

Mais sobre a história dela aqui (mas eu indico a biografia também).

Saudosa Clara. Salve Morena de Angola!


P.S.: Ouvindo uma música atrás da outra, isso faz lembrar muito minha primeira infância. Era bem coisa do meu irmão ouvir isso, explica muita coisa.



a Lorena explica: da incrível relação entre educação, machismo, segurança pública, igualdade social e a PEC das domésticas.



Como prometido, eis o post da querida leitora Lorena Possa.
Apreciem.


E eis que, finalmente, o governo resolveu fazer uma PEC em benefício de domésticas e babás. 2013 e só agora as domésticas, de fato, são consideradas trabalhadoras com direitos tão importantes como aqueles que eu, você e seu colega que trabalho com vínculo CLT desde uns 16 anos têm (18 se você tiver uma família um pouquinho mais abastada). A importância desta PEC é maior do que ela aparentemente tem, embora as inúmeras reportagens exibidas por ai não tenham dito isso (pausa pra dizer que nojo eu sinto de gente que vai dar a cara a tapa na TV pra dizer pro repórter que “agora está difícil ter doméstica”).

A nova PEC influencia a educação dos nossos jovens. Jovens que até então foram educados por babás. Jovens que desde bebês tiveram suas fraldas trocadas por babás e domésticas que faziam isso a troco de um pequeno salário sem carteira assinada, seguro-desemprego, PIS e FGTS. Agora, papais e mamães ou irão ter que trabalhar muito para poder pagar as babás de suas crianças ou irão ter que fazer como a grande maioria da população faz: matricular o rebento em uma escolinha, trabalhar e cuidar da criança sozinhos à noite e aos finais de semana/feriados. Começa aqui o pânico de muitos pais e mães classe média: cuidar dos próprios filhos (porque eles geraram e pariram, mas eles não podem trocar fraldas e ajudar na hora da lição). Estou me coçando para daqui alguns meses dar uma voltinha na zona sul e ver menos gente vestida de branco com crianças em parques, clubes e shoppings. E mais madames e engravatados se atolando na areia do parquinho cheia de mijo de gato.

O pouco, quase nenhum, convívio com os pais e mães que nossas crianças tiveram certamente influenciarão no comportamento de nossos futuros jovens. Ou você vai dizer que não conhece nenhum playboy que vive fazendo presepadas para chamar a atenção dos pais? Jovens criados sem limites, sem carinho, sem normas, foram ontem crianças que à menor manha ou chororô tiveram pais que cediam ou chamavam a babá – que tantas vezes já estava lá, repousando em seu enorme quartinho 3x3 onde mal cabe uma cama.

Não resisto. Preciso falar: você já pensou em quem cuida dos filhos das babás e domésticas que dormem na casa de seus “patrões”? Ela não tem condições financeiras de pagar uma outra babá para cuidar dos seus filhos, como você já sabe. E, então, o que vai acontecer é: essas crianças serão criadas num misto de rua + escolas públicas ruins + avós. Com sorte, a doméstica/babá terá uma mãe aposentada gozando de boa saúde e com condições de ficar com as crianças no momento em que elas não estão naquela escola pública de péssima qualidade. E, caso você ainda não tenha entendido: essas crianças menos favorecidas financeiramente perdem suas mães para as crianças mais favorecidas. Mas e os finais de semana? E os feriados? Bom, quem já andou em um shopping zona sul já deve ter visto o combo “casal classe média andando com suas roupas de grife + atrás babá vestida de branco com bebê no colo”. Você vai almoçar no shopping domingo e vê essa cena. E eu te pergunto: é domingo e cadê a babá que não está em casa vendo “Turma do Didi” com o próprio filho? Bem, você já deve ter entendido a resposta.


Mas ai você vai dizer “o que tem a ver uma coisa com a outra?”. Eu acho que é sua obrigação saber, mas nem sempre a ficha cai, então é melhor ser bem explícita. Amigos, as crianças que não são criadas pelas suas mães que são babás/domésticas, que dormem em seus empregos, que geralmente recebem um dia de folga às segundas-feiras (porque final de semana os “patrões” precisam descansar e alguém precisa calar a criança!), bem, essas crianças aí deixam de receber carinho, amor e, principalmente, educação. E ai o que vai acontecer é: a criança vai sendo criada na rua, na casa da tia, da vizinha, da avó. Recebe influências de todos os lados e não tem uma mãe presente para corrigir à noite aquele palavrão novo que ele aprendeu no colégio, como a minha mãe teve a felicidade de fazer comigo. Não tem mãe para ajudar no para-casa. Não tem a quem correr quando sofrer aquele bullying. E aí essa criança vai crescer e vai virar um adolescente, que vai se cansar de ver a mãe trabalhando dia e noite para sustentá-lo. Mas, ironicamente, a mãe trabalha de sol a sol e continua não tendo condições de dar a ela aquele brinquedo que ele viu no comercial. Aquela roupa de marca. E os brinquedos e as roupas que ele tem são sempre as sobras que os “patrões”, tão bonzinhos, doam (quando a criança deles já não quer mais, é claro).

Quem já leu “Falcão: meninos do tráfico”, do MV Bill e do Celso Athayde, sabe: a maior queixa de crianças entre 10 e 14 anos no livro são justamente disso que eu disse acima. Eles sempre ficam com as sobras dos filhos das patroas. A sobra de roupa, de brinquedo, de afeto e de tempo. A eles, só resta isso: as sobras. O salário disso é a violência. A ilusão de querer ajudar a mãe que trabalhou anos luz na vida, mas não vai conseguir aposentar. A ilusão de ajudar a mãe que quer sair do emprego, mas não vai ter FGTS e seguro-desemprego para ajudar. E, nessa ilusão, vai entrar para o mundo do tráfico, ganhar um dinheiro rápido, sujo e violento. E as babás e domésticas da classe média vão perder seus filhos para a rua.

Os filhos da nossa classe média terão um pouco mais de sorte. Vão sobreviver. E, veja bem, eu disse sobreviver. Isso não quer dizer que serão plenos e felizes quando adultos. É bem capaz que na ausência do carinho dos pais, tempo e atenção, cresçam frustrados. Sem o entendimento de limites e nãos, vão ser adultos babacas que xingam no trânsito, arrancam braços de ciclistas porque acabaram de sair da boate em plena madrugada de domingo, idiotas que chegam atrasados no trabalho e acham que o chefe não pode lhes chamar a atenção. Completos babacas sem nenhum limite e noção da realidade.

A nova PEC, amigos, quer dizer muita coisa. Quer dizer que, finalmente, domésticas e babás são trabalhadores como eu e você. São gente como a gente. Têm salário, FGTS e horários para chegar e sair do emprego. E, finalmente, vão poder voltar para suas casas no horário certo, após 8 horas de trabalho contadas no relógio. E, assim, vão poder cuidar de seus próprios filhos, da sua própria louça, da sua própria vida. E mais: se quiser vão usar as horas que restam do seu dia para estudar e crescer na vida.

E enquanto isso, a classe média vai ter que aprender a trocar fraldas. Que a louça não volta limpa pro armário sozinha. Que é chato passar roupa social. Que o lixinho do banheiro precisa ser recolhido com frequência. E todas essas coisas que qualquer pessoa que não viveu a vida toda com babás e domésticas no encalço já sabe. E eu espero que também aprendam que limpar fraldas e conter o choro do bebê faz parte da rotina de ser pai e mãe.


Espero que a nova PEC não seja vista apenas como um aumento de gastos para nossa patética classe média. Espero que a profissão de babá e doméstica seja abolida, extinta para nunca mais voltar. E que o Brasil seja como um país de primeiro mundo: um país onde cada um limpa sua sujeira e educa seus filhos. E, uma vez por semana, no máximo duas, contrate alguém que vai lá dar uma ajeitada na sua casa, passar uma roupa, tirar uma poeira, e nada mais. Classe média, vocês vão ter que ariar suas panelas (e eu sinto uma alegria enorme ao dizer isso!).

Espero que a nova PEC dê às crianças menos favorecidas mães presentes, com condição financeira melhor e com mais tempo para seus filhos. Que essas mães possam trabalhar para viver e não para sobreviver. Por que só assim elas vão conseguir ganhar seus filhos da rua, do tráfico e da violência.

Espero que ter uma doméstica, babá e diarista seja mesmo caro, muito caro! Porque é assim que essas mulheres terão um salário digno do quanto elas trabalham. Porque o nome disso é igualdade social. É a gente poder não ter uma doméstica que ganha tão pouco e um engenheiro que ganha muito, muito mais (só porque sentaram no banco de uma escola mais vezes). Um engenheiro vai ganhar mais que uma doméstica em qualquer parte do mundo, obviamente. Mas não deve ganhar muito mais como acontece no Brasil para que a gente consiga ter igualdade social – ou chegar um pouco perto disso.

Por fim, falo do machismo. Não vou olhar estatísticas, porque nem precisa. Um número superior a 90% de domésticas e babás certamente são do sexo feminino (atividade doméstica e da criação dos filhos são obrigação das mulheres e blábláblá). E essas mulheres foram profissionalmente discriminadas até hoje. Em 2013 essas mulheres ainda ganhavam tão pouco, não tinham direitos trabalhistas e arrisco dizer que em alguns casos o regime de trabalho e as condições são quase escravocratas. Dormir no trabalho num quartinho minúsculo e abafado seis dias por semana, sem direito a quase nada. Que outro tipo de profissional se sujeitaria a isso? Engenheiros, médicos, publicitários, administradores... quem?

Os filhos dessas domésticas e babás têm pais, é claro. Mas quantos pais dessas crianças vocês conhecem que suprem a falta das mães? Enquanto elas estão lá, dormindo na casa dos “patrões”, quantos pais se fazem presentes em suas casas? Quantos pais ajudam a fazer a lição de casa? Muitos deles nem se quer registraram o filho. Não vivem mais com a mãe dessas crianças. Negligenciam os filhos de todas as formas.

Enquanto isso, os pais “patrões” estão por ai, querendo pagar para alguém trocar as fraldas que eles deveriam trocar. Dar a papinha, ensinar a lição, ver um filme junto. Lavar os pratos que eles sujam e trocar o papel higiênico quando acaba. Portanto, espero que a PEC traga também luz a estes pais. Ser pai e ser homem é isso: participar da vida do filho e de toda rotina da casa.

Que cada vez mais domésticas e babás se tornem diaristas que cobram caro, trabalham cinco ou seis vezes por semana como eu e você. Para que elas cuidem de suas vidas e que a nossa classe média aprenda a cuidar da própria vida.

Durante todo o tempo escrevi patrões entre aspas. É só para deixar claro o quanto essa palavra é ridícula e nos remete à escravidão. Desconheço profissionais que chamam seus chefes de patrão. Aliás, hoje nem é chefe mais, é “gestor”. Justamente porque ninguém gosta de se sentir diminuído.


P.S.: Eu sou filha de pais trabalhadores que lutaram muito para sustentar a mim e a minha irmã. Minha mãe trabalhou até o sábado pegando três ônibus para ir e três para voltar do trabalho como vendedora em um shopping zona sul. No domingo pela manhã eu nasci de uma cesariana. Quatro meses depois ela voltou ao batente, e eu fui para a escolinha. Meus pais se revezavam entre levar/buscar/cuidar. Eu não cresci traumatizada por isso, mas tenho um puta orgulho da história dos meus pais e da batalha que eles travaram para me criar. Eles já trabalharam viajando Brasil afora, em casa, longe de casa, enfim: mas sempre fizeram questão de ser pais no sentido mais estrito da palavra. (Tudo isso que eu disse só foi possível porque ao lado da minha mãe eu tinha um pai presente. Que sempre entendeu que tarefa doméstica é obrigação de todo mundo que mora na casa. E que criação de filho é obrigação de mãe e de pai, igualmente).
P.S.2: Durante uma curta fase de nossas vidas tivemos uma empregada doméstica (odeio essa expressão). E ela tinha carteira assinada, 30 dias de férias e nunca trabalhou finais de semana e feriados. Hoje, tenho uma diarista uma vez por semana, devidamente registrada. E torço para que continue assim.


1888

No último post que publiquei aqui eu falei sobre a estranha relação entre a policial defensora de brasileiras escravizadas na Turquia e a empregada doméstica que ela tem, praticamente escravizada também, 24 horas por dia prontinha pra servi-la. Graças a Deus isso é apenas ficção, e ainda por cima obra de Glória Perez, então, coisa surreal mesmo.

O pior, entretanto, é que a realidade é quase isso. A relação entre patrões e empregados domésticos neste país é tão inacreditável que só agora, no século XXI, criou-se uma regulamentação pra ela, a PEC 66.

Vocês já devem ter lido a respeito por aí (deixei um link no próprio post supracitado), então, já deve ter suas conclusões.

Eu não ia tocar no assunto (porque me chocam os argumentos de algumas pessoas, inclusive bem instruídas, sobre esse resquício de escravidão no Brasil). Mas daí, numa dessas coincidências da vida, uma das leitoras mais queridas (e brilhantes) deste blog me enviou um texto seu, onde ela expressa com o bom senso de sempre, seu ponto de vista a respeito do assunto.

O artigo da minha querida amiga Lorena Possa será publicado no próximo post, logo mais (depois do almoço, prometo!). É um presente que este blog ganhou e que eu quero compartilhar com vocês. Seja lá qual for o seu entendimento a respeito da PEC 66 e das mudanças ela deverá trazer, vale conferir o que a Lorena tem a dizer.

Adianto que concordo com todas as ponderações dela.

Sinto-me honrado mesmo em poder publicar texto tão bom neste meu blog. Sintam-se todos convidados a escrever aqui também, sobre o tema que for.

Por fim, até pra preparar pro que vem por aí, deixo essa belezura de vídeo, estrelado por uma senhora que, ao que tudo indica, nasceu no Brasil novicentista.

Abraços a todos. E, mais uma vez, muito obrigado Lorena!



P.S.: sorry, desta vez não consegui ajustar o vídeo de jeito nenhum; mas taí, dá pra ver. ;-)