domingo, 23 de fevereiro de 2014

o pássaro azul

Dia desses, sem querer, li uma nota em algum lugar falando sobre os 10 anos de "Garotas Malvadas" e chamando o filme de clássico. De fato "Mean Girls" é legalzinho (amo a Regina George na coroação da Prom Queen), mas chamar de clássico, quando muito, só mostra o quanto o sentido de tudo se esvaziou.

Filmes, ainda mais clássicos, me remetem à qualidade dos longas que a gente costumava ver num programa que perdeu também, há muito tempo, seu sentido, a "Sessão da Tarde". Daria pra enumerar uma digna quantidade de clássicos de verdade (e clássicos da "Sessão da Tarde"). Mas por algum motivo que não sei especificar, quando penso em "Sessão da Tarde" mesmo, daquela com essa abertura (só lembro a da Brigitte Bardot), o filme que me vem à mente é sempre "O Pássaro Azul".

Isso é pré-"A Lagoa Azul" (cê vê que, como já dizia Baby Consuelo, é "tudo azul"). Enfim, eu era muito, muito novinho quando vi isso (chuto 1981). Nunca lembrei nada da história, mas lembrava de uma cena X, só dela (e ainda assim nunca estive certo de que me lembrava direito).

Fato é que há coisa de um ou dois anos baixei o filme -- mas nunca me apeteci de vê-lo. Ontem à noite, passando pela minha lista, resolvi, enfim, assistir.

Quase desisti de cara quando vi que a estrela era a Shirley Temple. Tenho PAVOR da Shirley Temple, muito em função da anã Maísa, que é de quem eu tenho PAVOR de verdade. Mas segui assistindo.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o garotinho irmão da protagonista: era eu criancinha. Certeza, cer-te-za que minha mãe queria que eu fosse algo tipo ele (e provavelmente todas as outras mães, já que todo mundo da minha época tem fotos com a mesma roupa e os mesmos cabelos).

A segunda coisa que me surpreendeu foi a história em si, mas mais especificamente o fato de que o cachorro e a gata dos dois irmãozinhos protagonistas viram gente, graças a uma fada enrolada numa colcha de patchwork, para acompanhá-los. Eu simplesmente amei a criatura que a gata virou, brilho a atriz e a figurinista.

O problema, contudo, começou nos bichos mesmo: o cão virou homem, o gato (que até então não se sabia que era uma gata) virou mulher. O cão/homem é o parceirão fiel e a gata/mulher é imediata e literalmente tachada de traiçoeira. Longe de mim querer soar feito essas feministas de farmácia, mas pensa em quantas gerações cresceram assimilando esses preconceitos/estereótipos imbecis? Pra completar entra a Luz, uma criatura looooooura que só (mas, enfim, é a Luz, não vamos ser radicais aqui). Vale lembrar que a gata tem os cabelos pretos (se você já teve a oportunidade de cursar "Estudos Culturais" alguma vez na vida vai entender. Se não, procure saber quem foi Stuart Hall.

Daí pra frente eu tomei birra do filme e decidi que ia rever "12 Years a Slave", que já era o que queria ver mesmo. Então passei o "O Pássaro Azul" pra frente pra ver se a tal única cena de que me lembrava existia mesmo. E ela existia. Do jeitinho que eu me lembrava. Não lembrava NADA do filme, mas me lembrei perfeitamente da cena nesses anos todos.

Na busca pelo tal pássaro azul (que pelo que entendi é a felicidade -- curiosíssimo que ela seja justamente blue),  a dupla de irmãos visita o passado e o futuro. A tal cena se passa no futuro, que fica acima das nuvens, num lugar onde todas as crianças se vestem iguaizinhas, mas os meninos de azul e as meninas de rosa (nem vou comentar). Essas são crianças que ainda vão nascer, e pra passar o tempo elas ficam lá em cima inventando coisas. Uma delas, um rapazinho na verdade, com cara de Abraham Lincoln sem barba, está num canto, chatiado.com, e então ele conta que não quer nascer porque o mundo é um lugar cheio de tristeza, sofrimento, injustiças. Em dois tempos ele é convencido pela pequena heroína a nascer e já muda seu discurso, dizendo que vai vir ao mundo pra lutar pra que todas as pessoas sejam felizes e que todas tenham direitos iguais. Claro, ali naquele pré-xoxota onde eles estão não tem UMA ÚNICA criança pretinha, então elas não devem ter sido incluídas nesses direitos dele.

Mas o que interessa de fato é o tal momento em que eu mais me lembrava. Uma porta se abre e vem uma criatura assustadora com uma foice na mão. Não, não é a Morte: é o Tempo (e isso talvez resolva um dos meus maiores pavores na vida; mas isso é caso pra outro post). Enfim, o Tempo vem e busca as crianças que vão nascer naquele dia. Elas vão aos montes, à medida que são chamadas. E aí então vê-se um casal de adolescentes abraçados, aos prantos. O Tempo arruma um tempo pra ir lá ver o que passa e descobre que o rapaz, chamado pra nascer naquele dia, não quer quer ir. O motivo que o faz não querer partir ir é o fato de que ele vai falecer antes mesmo que sua amada vá nascer  -- ou seja, não se encontrarão e, consequentemente, passarão a vida sozinhos. 

É aí que o jovem solta um: "I should be the saddest thing on Earth". E é aí que eu esqueci minha recém-birra com o filme e engasguei. 

Eu me lembrei dessa cena (o que posso chamar de) a minha vida toda. E daí assim, numa hora dessas, numa hora dessas, eu finalmente entendi por quê.

Depois disso eu parei o filme e vim escrever. E não vou terminar de ver não. Deixa o passado lá no passado mesmo. Já tenho trabalho demais tentando não sofrer com o futuro.O tal pássaro azul deve ser o presente, e é dele que me interessa cuidar agora.


Abraços.



P.S.: Sorte de quem vai, daqui a 20 anos, lembrar de alguma cena de "Garotas Malvadas". Eu invejo.
P.S.2: Não demora pra nego fazer uma versão 3D de "O Pássaro Azul" cheia de ação e sexo, né?
P.S.3: Mentira, pulei mais um pouco e vi o final sim. Eu tenho medo dessas "coincidências" que acontecem na minha vida, especialmente no que diz respeito a assistir filmes e/ou séries na hora que preciso ver. O subconsciente é uma coisa muito doida mesmo, Jesus.


3 comentários:

Teago disse...

nunca vi falar deste filme... depois vou procurar pra saber como ele é...

Mel disse...

cara, pago muito pau pra ti, pqp, se garante demais! Adoro esses posts que vc faz relação entre uma filme, música, livro...e o seu passado, acho lindo hehe. Keep them coming;D

o Humberto disse...

Ô gente, pagar pau pra mim? =D
Obrigado Mel, de vdd. Escrever sempre me fez bem e, definitivamente, saber que o que eu escrevo faz bem pra alguém também só faz a coisa ter mais sentido. Muito obrigado mesmo. <3