segunda-feira, 3 de março de 2014

Oscar 2014 III - É da Lupita!

- Tia A tinha o cabelo bem liso, não tinha?
- Tinha. Liso como de índio, pele morena, olhos verdes.
- Gente, mas a Tia B tem cabelo enroladinho, enroladinho, como que saem tão diferentes sendo filhas do mesmo pai e mesma mãe? Você conheceu os pais das duas?

E foi assim, do nada, de uma curiosidade sobre minha Tia A, com quem eu convivi muito pouco, que eu fui fazendo, sem querer, uma árvore genealógica dos dois lados da família. Fui o mais distante que a memória das minhas fontes conseguiu alcançar.

Não é a primeira vez que essa curiosidade me bate. Vinte anos atrás, adolescente, eu tentei saber mais sobre meus antepassados, mas, não sei exatamente por quê, a empreitada falhou logo. E o pior é que meu avô, melhor fonte de todas, faleceu um ano depois.

Fato é que essa rápida (mas nem tanto) pesquisa sobre os Souza (e Silva e outros mil sobrenomes) esta tarde foi interessantíssima. Algumas características ficam muito claras, como traços físicos, costumes e até mesmo as doenças comuns no lado da família que vem do pai e no que vem da mãe.

Curiosamente, o mais distante que consegui chegar, cerca de 160 anos atrás (pra surpresa quase nível choque de Dona Mãe), termina em senhoras claras e louras, que, pelo que estou quase constatando (na verdade imaginando, e torcendo pra confirmar), se casaram uma com um senhor árabe e outra com um senhor negro (torcendo pra estar certo!).

Das mil histórias pelas quais passei até chegar em passado tão (ou nem tão) distante, a que mais me deixou sem palavras foi a do moço que minha mãe conheceu quando ela tinha seus 11 anos. Um escravo. Minha mãe conheceu um escravo (e pela fisionomia dela quando contou o quanto ela se ressentia das crueldades que a senhora do escravo fazia com ele, você pode imaginar a vida do pobre). Você provavelmente já concluiu e já se chocou com o que me chocou: que esse moço era escravo muitos anos depois de abolida a escravatura -- mais de 50 anos depois, pra ser mais preciso.

Eu sempre fui um apaixonado por História, e acho uma coisa tenebrosa que hoje as pessoas já considerem velho e digno de ser esquecido algo que aconteceu ou alguém que viveu cinco anos atrás (ou bem menos). O curioso é que se as pessoas têm essa facilidade (seria "necessidade" a palavra certa?) de esquecer o passado, elas, por outro lado, mantêm o que havia de mais abjeto nos tempos remotos. Como o racismo, por exemplo (que não é passado, justamente porque nunca se foi, embora, esperaríamos, já devesse ser coisa superada pela humanidade no século XXI). 

Em êxtase pelos achados da minha pesquisa, fui comentar com parente próximo sobre os casos que ouvi. Em tom que me fez pensar que eu sou um louco que foi mexer no que não tem que ser mexido, ele perguntou por que eu comecei tudo isso e eu falei que surgiu da curiosidade sobre a diferença dos cabelos das tias. Nisso, fui obrigado a ouvir: "Bom, meus filhos nasceram de cabelo enrolado, mas pelo menos eles nasceram brancos". E foi aí que lembrei que não tem jeito mesmo e que as coisas não vão mudar. E que o mundo é bacana, mas as criaturas são, sempre foram e sempre serão uma bela bosta.

Enfim, toda essa história aconteceu menos de 24 horas depois que minha paixão, Lupita Nyong'o levou seu primeiro Oscar (por sua atuação em "12 Anos de Escravidão"). Não desmerecendo o talento dela (muito pelo contrário, ele inclusive foi o motivo pelo qual me apaixonei por ela), mas é nessas que eu vejo que muito da emoção gigante que me tomou quando ela venceu a disputa não foi só por ela ser a melhor atriz este ano. Foi pelo tapa gigante na cara que ela dá em gente que tem esse tipo de mentalidade a esta altura da "evolução".

Dá-lhes, Lupita! Esse Oscar é nosso, princesa.



3 comentários:

Daniel disse...

Não sei qual a razão de tanta babação de ovo em cima dessa menina! Porque ela é negra e bonita? Por isso? Porque só vejo o povo dizendo que 'nossa que negra linda', quer dizer, se fosse uma negra feia ou gorda geral nem daria bola. Pra mim ela tem muito ainda o que mostrar e só vai ganhar o meu respeito como estrela o dia que e SE, o que é bem improvável, ela for uma Sandra Bullock da vida, que consegue segurar varios filmes sozinha, passando de Enquanto Voce Dormia à Miss Simpatia e o mais recente Gravidade. Aí sim, vou dizer que ela é estrela de verdade. Até lá, menos. Bem menos.

Tô Ligado disse...

Achei muito bacana e merecido. Onde o que importou realmente foi o talento.

o Humberto disse...

1) Obrigado "Daniel", fiquei muito feliz de você ter vindo aqui no blog pra xingar a Lupita. Da próxima vez não deixe de ler o post, ok?
Quanto aos seus argumento, eu ri, Glenn Close riu, Meryl Streep riu e até a Sandra Bullock riu.
Enfim, obrigado mesmo. E, ah, não deixa de assistir ao ganhador do Oscar de Melhor Filme de 2014, hein!


2) Tô Ligado, querido, bom ver vc por aqui de novo! =)

Abraço pros dois.