domingo, 8 de junho de 2014

não tem fim

Na volta de uma das nossas viagens, conversando no avião, e por não sei que motivo, a gente falou sobre o que aconteceria quando nossos pais morressem. 

"Eu vou continuar tendo família, sou filho da Letícia e do Chico.", ele disse, sem nem pestanejar. E estava certo -- qualquer um que o tenha conhecido de verdade sabe das três mães dele, a mini-drag, a madrinha e a amiga Letícia. 

E então ele, mesmo brincalhão do jeito que era, olhou pra mim e viu que eu fiquei calado. E "sem-filtro" (ou "sem loção") como também era, foi logo soltando: "Se seus pais morrerem você fica sozinho no mundo, né?"

Eu, que já conhecia bem a peça, e o amo por isso mesmo, engoli em seco. E daí ele abriu aquele sorrisão e completou: "Não chora não que eu vou cuidar de você." E foi aí que eu quis rir, mas acabei chorando de verdade. Porque eu nunca tive estrutura pra ouvir isso. E porque no fundo eu sabia o que me aguarda numa situação dessas.

Foi doído, mas foi uma das situações onde mais senti algum carinho de outra pessoa por mim, talvez por isso lembre dela sempre.

Mas daí, contrariando tudo que qualquer um jamais pudesse ter imaginado, ele se foi, antes de todo mundo e muito, muito cedo. E eu me dou conta de que essa coisa que às vezes bate bem aqui em mim e que me deixa triste, muito triste é o fato de saber que eu não vou ter você pra cuidar de mim.

Eu sinto muito sua falta, Señor.
Eu sinto muito.


5 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Eu já vivi sob esta perspectiva qto ao futuro e ao final ... mas o tempo passa e amadurecemos com a vivência de muitas experiências. Assim vamos percebendo q tudo muda inclusive esta percepção e q nos adaptamos a cada fase da vida ...

Beijão

Eduardo de Souza Caxa disse...

Ô seu Francisco! Borá descer dessa nuvem, largar essa harpa uns minutinhos e arrumar um Cuidador pro nosso peixinho? Vem cumprir tua promessa, mano.

P.S.: Show do Vander Lee ontem em Sampa. Lembrou muito você. :-)

o Humberto disse...

Bratz e Edu, meus dois caros,

Sabe bêbado? POis é, eu quando vejo filme choroso de madrugada, SÓBRIO, fico ainda pior que bêbado.

Sure, eu sinto 4 milhões de sdds do Francisco, mas quando me batem esses chorumes nem é o pobre que tá me batendo não, é outra coisa, que pouco tem a ver com ele. A lembrança (só do que foi bom) com ele vem mais é pra lembrar que dá pra ser bom, que não precisa ser só merda a vida. Mas enfim, isso é coisa minha comigo mesmo. Eu até que procuro deixar o pobre sossegado lá, quase apaguei esse post.

Enfim, obrigado pelo carinho de sempre dos senhores. Eu tava meio down demais esses dois últimos dias, daí fui ver "The Normal Heart", deu nesse chorume. Pelo menos valeu, pq eu pus pra fora, acordei hoje como se tivesse acabado de dar uma ótima (inclusive devia era fazer isso mesmo, rs).

Beijo grande pros srs,ótima semana pra vcs!

Alan Raspante disse...

Sentir falta é a pior coisa que existe.

Total te entendo.

Janaína Souza disse...

Tem espaços vazios que nem o tempo, nem outra pessoa, nem nada pode preencher, Humberto. Isso é ruim e é bom. É ruim pela constatação que temos de que tudo é finito. Mas também é bom porque significa que podemos ser tocados por alguém (ou por algo) que de alguma forma revela o quanto ser, estar e sentir transcenda qualquer explicação. Se for pra conceituar, dar alguma definição, não sei. Mas desconfio que isso seja amor. Será!?