sexta-feira, 25 de julho de 2014

caminho para Capim Branco

       A mão pesada já era conhecida, mas os tapas na mesa tinham ainda mais força porque vinham carregados de convicção:
        - EU. NÃO NAMORO. NUNCA. MAIS!
        Todo mundo riu, mas a conversa continuou. Todo mundo ali conhecia o quanto Joãozinho havia se cansado de quebrar a cara com suas investidas amorosas, várias, mas apenas ele sabia, deep inside, que depois do velho boy e, em especial, do louco, aquela afirmação era verdade: namoro, nunca mais.
        Os almoços de sexta-feira eram os mais divertidos, a comida era a melhor, e o papo sempre girava em torno de um dado tema e um escolhido da mesa pra ser o Cristo. E aquela era a sexta-feira do Joãozinho, que há meses aguentava o chefe playba no seu pé e há semanas não sabia o que era dormir de tanto trabalhar. A falta de sono, além de tê-lo mandado para a emergência do Pronto-socorro por ao menos duas vezes, com suspeita de ataque cardíaco, deixava-o ainda mais irritado que o habitual e muito sem filtro. A verdade é que dormir não era o remédio que curaria aquele coração cagado, nem era o freio que daria limite à franqueza, quase inocência, de sempre. Mas ainda assim, antes de se levantar da mesa, Joãozinho, para mais uma rodada de risada dos colegas de trabalho, fez questão de prometer novamente:
        - EU NÃO NAMORO NUNCA MAIS! E hoje eu durmo.
       Saiu tarde do trabalho. Pegou aquele mesmo trânsito do cão de sempre, mas ao menos se divertiu com os casos do amigo carona. Chegou em casa, brincou com as sobrinhas, com o gato, com os cachorros. Antes que pudesse cumprir sua promessa, já havia saído de casa de novo. Foi pra night, voltou tarde, dormiu pouco, acordou, saiu de novo. Academia, mercado, frutas, mais do que nunca, de agora em diante, amor só próprio mesmo. 
        Quando finalmente pensou em dormir de verdade, no meio da tarde, Joãozinho foi chamado pra uma festa na casa do amigo do amigo do amigo do conhecido. - Que caralha, já fiquei acordado até agora mesmo, deixa eu ir essa merda, se estiver ruim eu volto.
        Chegou no local e não fez a menor questão de esconder que estava com sono (nem se quisesse). Mas pensou logo que já que estava ali mesmo, ia se divertir rapidinho, o suficiente pra relaxar, e logo voltar pra casa pra um insubstituível sono de 12 horas. Ficou à vontade, pegou uma bebida, e então foi levado pelo anfitrião para conhecer já estava no local.
        Foi com a cara mais antissocial que tinha, já arrependidíssimo de ter saído de casa, não ouviu nada do que o sujeito lhe disse, mas o seguiu até entrar por uma porta e ver.
         Viu que havia sido descoberto por aqueles olhos e então foi completamente desarmado por aquele sorriso.
        Joãozinho não se lembra o que disse. Mas nunca esqueceu o que sentiu naquela tarde de julho. Nunca irá.



P.S.: A saber, Joãozinho só conseguiu conversar uma semana depois. E só conseguiu finalmente reencontrar aquele sorriso ainda um outro dia depois disso. E, mais importante, no frigir dos ovos, cumpriu sua promessa: não namorou nunca mais.


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